UtupiAR: é urgente!

Sexta-feira, Abril 28, 2006

30 de Março – quinta-feira

Fui a uma reunião especial para voluntários da SOS Racismo Catalunha (www.sosracisme.org). Fui um bocado com o pé atrás, confesso, já que tinha visto um anúncio deles a pedir voluntários num site na Internet, enviei e-mail, e não me responderam. Nem sequer me avisaram desta reunião, tive conhecimento dela porque, por acaso, recolhi um boletim mensal da associação.

Cheguei um pouco atrasada (porque perdi-me de bicicleta) e estavam 2 pessoas na reunião, que era de facto especial para voluntários, onde uma senhora explicava (em castelhano!) um pouco da associação e os vários projectos existentes.

A SOS Racismo nasceu na Catalunha em 1989, tendo agora grupos espalhados por todo o país. Antes de mais, é necessário compreender que esta associação compreende racismo como qualquer tipo de discriminação baseado em qualquer característica da pessoa como cor, género, religião...

O seu trabalho divide-se em duas vertentes: denúncia e sensibilização (fez-me lembrar a campanha do eco-consumidor do GAIA). Sobre a primeira, têm uma oficina de denúncia que funciona de segunda a quinta no horário das 16h às 19h, na qual trabalha um educador social (confirmar), juntamente com um advogado, que “recebem” todo o tipo de denúncias de discriminação. Dependendo do grau e tipo de discriminação sofrida, fazem mediação, aconselham acompanhamento psicológico, ou ajudam a procurar emprego, ou reencaminham para outros serviços mais indicados. Trabalham também muito em equipa, por exemplo, se se trata de uma discriminação laboral, sabem que podem contar com a ajuda dos sindicatos.

Cada ano (em Março) apresentam uma memória da oficina de denúncias (cuja senhora nos mostrou), que é dividido em temas. Em Abril apresentam um relatório anual (em formato de livro) comparando as várias memóridas descritivas de todos os grupos SOS racismo de Espanha, dando uma imagem assim da situação em todo o país. É publicado em várias línguas, para mais pessoas terem acesso. Lembro-me que a SOS Racismo portuguesa também publica algo do género.

Aliás, mal cheguei, tirei a dúvida que tinha sobre a SOS Racismo pertencer a uma rede europeia, já que em Portugal há uma associação com o mesmo nome. Não pertence a nenhuma rede europeia, pelo menos a SOS Racismo espanhola.

Paralelamente à denúncia do racismo através das memórias, têm campanhas de comunicação e sensibilização em relação a este tema.

Uma das campanhas é contra o racismo social, e envolve uma exposição audiovisual (com videos, fotografias, texto), um concurso de fotografia, um manifesto, e uma página web (www.prouracismo.org). É pena que a exposição não esteja de momento em Barcelona, pois depois da descrição entusiasmada da senhora, fiquei com vontade de a ver. A minha ideia é perceber-me até que ponto esses materiais (a exposição e campanha em si) podem ser usados (com umas pequenas adaptações) em Portugal.

Outra das campanha é a campanhas pelo direito ao voto dos imigrantes. É que em Espanha, os americanos passado dois anos de cá residirem, podem ter nacionalidade espanhola e votar, outros países como Inglaterra, Holanda, passado 5 anos, a maioria dos restantes apenas passado 10 anos. No bairro do Raval, por ex., a maioria das pessoas (cerca de 70%) são imigrantes e não podem votar na sua própria freguesia, o que faz com que os eleitos o sejam por uma minoria. Esta campanha ainda não foi iniciado sendo a sua inauguração para breve.

Há ainda a campanha “Filhos Imigrantes”, já iniciada o ano passado, quando organizaram um grande encontro no Verão com diferentes organizações internacionais que trabalham o tema. Este ano, a ideia é de uma Escola de Verão aberta a todos, mas gostavam que tivesse uma forte participação de ONG’s criadas por filhos de emigrantes.

Na manga, há uma campanha sobre racismo e desporto, onde pretendem criar uma claque contra o racismo no Barça.

Transversal às campanhas têm o boletim “colors” que editam cada mês, com várias noticias, com um testemunho da oficina de denúncia e outros artigos de interesse.

Existem também os grupos de trabalham temático, que se dedicam a estudar e investigar algo em especifico como racismo e habitação, racismo e mulheres...

Parece-me que a SOS Racismo é uma associação bastante activa e com projectos interessantes, sendo assim uma boa associação para futuros estágios no nosso curso. Eu cá, vou ajudar-lhes a estabelecer contactos com algumas associações em Portugal que trabalham com imigrantes por causa de do tal projecto da Escola de Verão. Por isso, se souberem de alguma, comuniquem-me (sem ser a SOS Racismo portuguesa, porque aí já tenho contactos).

De seguida fui com a Ana e Helena mais uma vez ao centro cívico de Drassanes ver a última peça do ciclo de teatro de marionetas. Infelizmente, não achei nada de especial.

Ainda por cima, perdi o meu cachecol azul que gostava tanto por aí algures no dia de hoje...



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


29 de Março – quarta-feira

Mais uma tarde na biblioteca a pesquisar...

Recebi um e-mail de um amigo português, do GAIA Lisboa, que estava em Barcelona de momento. Como o e-mail já tinha sido enviado à praticamente uma semana e eu não o tinha visto porque como os meus pais estavam cá acho que nem houve tempo para ir à Net. Telefonei-lhe logo e ainda se encontrava na cidade, era o último dia.

Então combinamos um café e falamos sobre Barcelona e sobre o GAIA. Curiosamente, quando em despedidas nas Ramblas, encontrou uma amiga dele que eu já tinha contacto pois está bastante envolvida na Plataforma contra os transgénicos de cá (www.transgenicosfora.org), à qual eu já tinha enviado e-mail e nunca me chegou a responder. Ficamos então de contactar brevemente, assim como uma rapariga que estava com ela e que tinha uma amiga que estudava educação social e que tinha um projecto que me devia interessar. Ficaram com o meu e-mail e número de telemóvel e disseram que me iam contactar. Esqueço-me sempre que nestas coisas também devo ficar com o contacto pois pode haver esquecimento do outro lado.

Fico sempre admirada como estes espanhóis não param. Era quase 1h da manhã, numa quarta-feira, e as ruas estavam bastante movimentadas. Ás vezes penso que devem ser os turistas e os estudantes Erasmus mais adeptos de festa (que são quase todos, diga-se de passagem...) mas o grupo da tal rapariga amiga do Gualter ainda eram 5 ou 6 catalãos.

Hoje foi a primeira vez que andei de bicicleta e fiquei arrependida de não o ter feito mais cedo. Não é que não soubesse que adoro andar de bike, mas é que as bicicletas que temos cá em casa sempre me pareceram pouco seguras e nunca me deu vontade para pegar numa delas, atravessar o apartamento e descer as escadas com ela... Uma estava fora de questão por ser demasiado grande e eu nem sequer chegar ao pedal. A outra, a pequena (como eu gosto), não tem mudanças, um dos travões não funciona, o outro funciona mal, e tem um ar muito instável. Mas como me disseram que até se porta bem, resolvi experimentar. E de facto não é má, como a cidade é bastante plano as mudanças nem fazem muita falta.

Andei cerca de uma hora de bicicleta pela zona do Eixample e adorei. É que num instante (porque em mais de metade do tempo que a pé) faz-se uma rua inteira! E vê-se as coisas na mesma com calma, como a pé, e de uma forma muito diferente do que através de um vidro de um carro um de um autocarro turístico.

Difícil é estacioná-la! Não há assim tantos parques de estacionamento para bicicletas, aqueles ferros muito simples, então tenho que procurar um poste livre ou uma árvore. E como a bicicleta não é minha, estou sempre com medo que me roubem-na, já que dizem ser uma coisa muito comum aqui.

Certo é que a vou utilizar mais vezes.


">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


28 de Março - terça-feira

Hoje fui dar um passeio com a Marlene pelo bairro. Fomos ao mercado Hostafrancs para vermos uma exposição sobre as mulheres do mercado em tempos antigos, organizada, claro está, no seguimento do dia da Mulher trabalhadora. Queríamos comprar umas alcachofras para experimentar, que se comem muito aqui e nunca experimentamos (eu sei que experimentei uma vez num restaurante vegetariano mas já não me lembro...) e como só queríamos duas (estávamos com medo que não gostássemos) o senhor vendedor até nos ofereceu! Depois voltamos lá para umas tangerinas e quase não as pesou e levou-nos mesmo pouco dinheiro pelas ditas cujas! Não sei se parecia que éramos pobres ou algo do género, ou se simpatizou connosco ou se é simpático por Natureza. De qualquer forma, o senhor velhinho era uma simpatia. Assim como muitas pessoas que encontro aqui a trabalhar no Comércio.

Mesmo em cima do mercado havia algo que nos chamou a atenção pois era uma cooperativa de produtos educativos. Fomos ver e parecia um supermercado de jogos de tabuleiro, material de trabalhos manuais, livros na área da educação, psicologia, animação de grupos... Claro que escusado será dizer que perdemos lá meia tarde! Pena os livros serem tão caros! Ficamos foi entusiasmadas foi com os livros de trabalhos manuais e “memorizamos” umas ideias!

Contudo, o sol ainda brilhava lá fora, e fomos procurar uns centros sociais que tinha apontado no meu bloquinho que eram nessa zona. Primeiro identifiquei a Cooperativa Germinal, que só abre às quintas (pelo que então não foi desta que visitei). De seguida encontramos o Centro Social de Sants, com uma grande montra virada para a rua onde poderíamos ver vários cartazes, dentro fez-me lembrar uma sala das finanças ou algo do género. É que o hall tinha uns sofás e cadeiras ou bancos em formato de “L” e ao fundo via-se uma espécie de balcão corrido, com 3 pessoas do outro lado a trabalhar ao computador ou à volta de papelada. Como pareciam ocupados não fizemos perguntas, também porque não tínhamos nada preparado.

Por último visitamos Can Vies, uma okupa que também é centro social, onde já várias tive conhecimento de actividades que lá se iriam realizar. Entramos apenas na parte de baixo, que penso ser a de acesso ao público, que funciona como uma espécie de bar. Parecia um armazém, assim um pouco para o escuro e com um cheiro não muito agradável. Vimos os panfletos que estavam em duas estantes e demos uma olhadela nos cartazes e viemos embora.

Pelo caminho também passamos por outra okupa! Não me lembro se já referi que Sants é um bairro bastante activo no que toca a okupação e que há cerca de 40 casas okupadas. Um pormenor interessante que demonstra de certa forma a coesão do movimento é que há um calendário chamado “Usurpa” que está à porta de todas as okupas, no exterior, de forma a que qualquer pessoa que passe na rua tenha acesso (até na okupa ao lado da nossa casa há). Esse calendário (o Usurpa), que é semanal, tem no seu lado esquerdo uma coluna com o nome e endereço de todas as CSO (Centro Social Okupado) e outros locais/colectivos com uma filosofia não muito diferente das CSO e do lado direito várias colunas com os dias e todas as actividades e eventos durante essa semana em cada lugar.

Mudando de assunto, hoje soube que já tenho o que fazer nas férias de Verão! Uma parte das férias, pelo menos. É que um projecto de uma associação da Bélgica no qual o GAIA também se envolveu, foi aprovado. Podem ir 4 pessoas do GAIA. Acho que vou. É sobre uma campanha contra armamento nuclear chamada qualquer coisa como “presidentes da câmara pela paz” cuja a tal associação na Bélgica dinamizou, e que segundo me parece conseguiu que alguns presidentes de câmara declarasse o seu município livre de armas nucleares e a favor da paz.

O projecto em si é um intercâmbio (através do programa Juventude) que envolve 15 países europeus e 45 pessoas no total. Do programa fazem parte uma visita ao Museu da Paz em Ypres, biketour desde essa cidade até à capital, com paragens em 3 cidades diferentes da Bélgica (uma biketour a sério, bem organizada, eheh, com ciclovias, por isso família, não se assustem!), visita à NATO de Bruxelas, workshops armas nucleares e sobre a campanha, actividades interculturais, visitas “turísticas”...

É de 31 de Julho até 10 de Agosto! Só tenho de pagar 30% da viagem. O resto da viagem, a alimentação, o alojamento está incluído. Acho que é uma boa oportunidade e já estou ansiosa!

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


27 de Março - segunda-feira

De manhã fomos até ao mosteiro de Pedralbes, mas não era nada de especial. O que valeu foi o caminho para lá, pois era numa zona que ainda não tinha estado, zona rica da cidade, e cheia de edifícios luxuosos e bonitos.

Apanhamos um autocarro para ir visitar o Palácio de Pedralbes mas não deu sequer para ver o exterior porque o funicular que nos levaria lá em cima não estava a funcionar, tal como o meu guia previa. No site Internet da câmara de Barcelona é que já não me posso fiar, já que foi lá que vi que não funcionava só ao fim de semana, mas também durante a semana. Como nós, muitas outras pessoas estavam a ir para lá ao engano. Fomos só até a um ponto da montanha com vários miradouros, ou melhor, com restaurantes/cafés com miradouros, onde fomos num instante admirar as vistas e tirar fotografias.

Ainda deu tempo de irmos ao centro antes de terem que ir para o aeroporto. Foram 7 dias bem passados e divertidos!


No final da tarde fui à biblioteca, que os e-mails para pôr em dia eram bastantes.



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


26 de Março – domingo


Hoje levamos o farnel e fomos a pé até Montjuic (juntamente com a Marlene), passando por vários pontos de interesse. E como é o último domingo do mês a entrada é gratuita no jardim botânico (que se encontra na mesma área) e também lá fomos. Era um jardim agradável com árvores de diferentes cantos do Mundo. Fartamo-nos de tirar fotos.

Ainda fomos ao Pueblo Español, que não sabia bem o que era e tinha curiosidade. Réplicas de várias casas que representavam várias construções típicas de diferentes regiões espanholas. Era uma espécie de Portugal dos Pequeninos para os grandes, pois as réplicas eram em tamanho real e albergavam várias oficinas e lojas de artesãos.

Engraçado é que já tinha estado no mesmo local quando andava no 9º ano na viagem de finalistas. Só depois de percorrer algumas ruas é que comecei a aperceber-me e a associar tudo.

Á noite fomos ao Teatro, foi a minha prenda de anos para a minha mãe. Teatro no “L’ Antic Teatre” (www.lanticteatre.com), uma pequena sala que parecia clandestina mas particionada pelo “Ministério da Cultura”. “O Homem Esquizofrénico do séc. XXI” de Luis Brusca, fez os meus pais rir às gargalhadas. Um só actor interpretava cerca de 20 personagens diferentes no seu percurso de autocarro. Uma história hilariante, ou melhor, várias histórias, contadas através de muita mímica e alguma voz. Só mesmo visto, ainda por cima com uma certa mensagem social, ou política, conforme preferirem.


">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


25 de Março – sábado


Hoje o almoço foi em casa e vegetariano pois foi feito por mim e com muito gosto. É um prazer cozinhar para os outros, ainda para mais quando dão valor. O meu pai gosta muito de vegetais por isso é um prazer vê-lo comer.

Como o dia estava bastante solarengo, fomos passear pela área da Barceloneta, a área da praia. As portuguesas foram ter connosco e também nos encontramos casualmente com o Joseph.

À noite acabamos não sei como num Irish Coffee, infelizmente, já que preferia mostrar-lhes algo mais típico. Só que a minha família é um bocado complicada no que toca a decisões e foi difícil um local que agradasse a todos. Como faltava pouco para a meia noite (que seria o aniversário da minha mãe) queríamos encontrar rapidamente um local e aquele era o que estava mais à mão. E azar dos azares, a empregada era uma antipática!

Ainda fomos um bocadinho a uma discoteca (já que um colega me tinha ligado a perguntar se queríamos estar na guest list para não pagarmos) pois a minha mãe gosta de dançar. Claro que não aguentamos muito tempo pois estávamos cansados.

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


24 de Março - sexta-feira

Antes de sairmos de casa, dei uma vista de olhos ao “programa” que tinha feito para estes 4/5 dias que a minha família está cá. É que assim dá para gerir melhor o tempo e para não me esquecer de mostrar-lhes nada!

Hoje o fim da manhã foi de visita ao parque Guel, que gostaram bastante e eu também já simpatizei mais com ele.

Almoçamos mesmo perto da casa Vicents, que viemos a saber depois pela cozinheira do estabelecimento que é a primeira casa que o Gaudi desenhou. A senhora era de uma simpatia, daquelas que gosta de falar e o faz de uma forma despreconceituosa.

Seguiu-se o passeio pela freguesia da Grácia, das minhas favoritas, onde não perdemos as praças principais.

Os meus pais e irmão (embora este a resmungar mais) ainda tiveram fôlego para caminhar até ao Hospital de San Pau, não porque alguém se tivesse magoado mas porque eu tinha ouvido dizer que é um edifício modernista que também vale a pena dar uma olhadela. E sem dúvida vale. Ainda por cima as enfermeiras estavam em greve e o edifício tinha um ar mais colorido com as suas faixas reivindicativas anexadas e as enfermeiras de uniforme defronte dele a recolher assinaturas ou algo do género. Estes barcelonenses são mesmo reactivos, em todos os sectores, ou então são os sindicatos que têm bastante representação.

Descendo a Avenida Gaudi, pequena mas bem movimentada com as suas esplanadas agradáveis, chegamos à ansiedade Sagrada Família que queriam relembrar. De facto é um dos expoentes máximos da cidade, embora eu nem a ache grande piada. Só daqui a 14 anos estará pronta, mas pelo andar das obras não sei se não serão mais anos. Também por isso nunca a visitei por dentro, dado que já ouvi várias vezes dizer que não vale a pena porque quase só se vêm andaimes.

Continuamos pela Avenida Diagonal, uma das principais artérias da cidade já que a atravessa por completo exactamente na diagonal. Apesar de ter bastante tráfico, o seu percurso torna-se agradável devido ao grande passeio central e ciclovias. Fomos à Casa Ásia, que gosto de apelidar de “Pedrera dos pobres”, já que não se paga para entrar, mas pode-se circular por toda a casa (ver exposições, tirar fotografias nas suas salas com bonitos vitrais, navegar na Internet gratuitamente...) e inclusive subir ao seu terraço de onde se tem uma peculiar vista sobre a Sagrada Família com a Casa Tres Punxes à frente.

Descemos o Passeio da Grácia onde vimos as fachadas das famosas Casa Pedrera e Casa Batlô do Gaudi e outros exemplos de arquitectura art-nova e modernista de outros arquitectos.

O jantar foi num restaurante de Tapas, para nos deliciarmos com estes petiscos bem típicos da gastronomia espanhola, e não só, também do pão com tomate, especialidade catalã.

À noite fomos, depois de umas dicas do J., ao café mais antigo de Barcelona que fica na área do Raval. Voltamos cedo para casa, claro, que estava tudo estafado depois de outro dia quase sem parar.



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


23 de Março - quinta-feira

Depois de visitarmos os dois espaços que a GATS gere, os dois “casais” de jovens, fizemos uma proposta de acção. No entanto, dado ao pouco tempo que nos resta cá e que poderemos intervir, e dado o facto de não conhecermos bem o grupo-alvo com quem vamos trabalhar, não é, na minha opinião, uma verdadeira actividade sócio-educativa. Quer dizer, é um começo para. É uma forma de aproximação dos jovens com o intuito de deixar algo. Assim, o que propomos são um quebra-gelo inicial, uma actividade sobre virtudes (à semelhança do que aprendi na oficina de não-violência) e um actividade manual (reutilização de embalagens tetra-packs).

Hoje os meus pais e irmão chegaram e vão ficar cerca de 5 dias. Já estavam com saudades, e eu apesar de elas não serem fortes, estava com vontade de os ver. É que já na Finlândia não sentia muitas saudades da minha família e amigos, isto é, não me dava vontade de chorar nem nada, porque me adapto bastante bem a outros países, vejo sempre as coisas como desafios. Mas por outro lado, dou muito valor e penso muito neles, em Portugal, no que não fiz lá, no que poderia melhorar. Às vezes sinto que até passo mais tempo a pensar nas minhas atitudes e forma de agir em Portugal do que em Espanha ou noutro país onde esteja. Fico com a sensação que penso mais no Passado e no Futuro do que no Presente. Mas é certo que tudo isso é por causa deste último.

A vontade de lhes mostrar a cidade e tudo o que me encantava nela era imensa. E agora com as árvores a florirem e tudo verdinho parece mesmo uma cidade encantadora. É que no início não conseguia compreender porquê o encanto mundial por esta cidade, achava que não era assim nada de especial, com poucos monumentos que justificassem tamanha admiração e uma cidade suja e confusa. Agora a minha opinião muda drasticamente e começo agora a ficar enfeitiçada por esta cidade.

Depois de irmos até a uma praça perto de casa que gosto muito (Praça da Concórdia) fomos até ao centro e por lá passeamos o resto da tarde toda.

Na Rambla do Raval, passámos por uma espécie de manifestação pequena, com mais jornalistas que participantes. Mas pareceu-me uma espécie de contra-manifestação contra o Botellón no Raval da semana anterior. Segundo o que li no jornal, os estragos foram imensos, muitos pequenos proprietários tiveram prejuízos e foram muitas as pessoas que não dormiram toda a noite. Assim, muitas das pessoas que até compreendiam os motivos da “manifestação” ficaram contra. É o tal problema de pôr tudo no mesmo saco. No entanto, não tenho nada contra esta contra-manifestação, até porque só vão demonstrar a essa minoria que “estragou” o protesto que estavam errados. Li no jornal que houve 68 feridos leves e 54 detidos no dia do Botellón!!! Os bombeiros receberam cerca de 200 chamadas e realizaram à volta de 50 saídas, enquanto as urgências receberam também mais de 100!

À noite vimos mais uma peça de teatro marionetas em Drassanes, onde também se juntaram a Marlene e as outras portuguesas. A peça chamava-se “Um kilo de judias” e sinceramente, não gostei muito. Valeu pela sua originalidade já que durante toda a peça uma mulher estava a cozinhar (a cozinhar de verdade) num lado do palco e no outro uma mulher estava debaixo de uma mesa que tinha um buraco no meio através do qual ela manipulava duas marionetas; no entanto, muitas vezes a mulher levantava-se e a mesa era como se fosse a sua saia e manipulava as marionetas de uma forma visível.



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


22 de Março - quarta-feira


Hoje fomos visitar o outro “casal de jovens” que a GATS gere. Este também fica fora da cidade, em Canovelas e desta vez o tempo demora a passar pois é quase uma hora de comboio.

No “casal” trabalha a Olga, jovem educadora social (embora esteja contratada como tal, o curso que frequentou foi o de pedagogia social) e o Santi, monitor. Este, ainda mais jovem, está mais em contacto directo com os jovens, enquanto que a Olga está mais na parte de organização de actividades e de atendimento pessoal aos jovens.

O “casal” funciona todos os dias das 17h30 às 19h30 e a frequências dos jovens é incerto. Estes rondam os 12 e 16 anos e são jovens “problemáticos”, isto é, reencaminhados para lá através dos Serviços Sociais que detectaram (em conjunto com a Escola que frequentam) histórias de vida complicadas (pobreza, alcoolismo, violência doméstica...) ou apenas jovens com necessidades muito vincadas (como necessidade de atenção, de aprendizagem...). Os adolescentes derivados dos Serviços Sociais são obrigados a frequentar o casal um x número de horas por semana, enquanto os outros jovens também o têm de frequentar um x número de horas mas porque assinaram voluntariamente uma espécie de “compromisso” no inicio do ano de como queriam frequentar o “casal” e o fariam determinados dias. Desta forma não tiram lugar a outros jovens que também querem participar, porque o “casal” tem de ter um limitado número de participantes.

Nas poucas horas que lá estivemos podemos comprovar que os jovens são de facto bastante irrequietos, parecem mais novos do que o que são, nada simpáticos, e há uns que são bastante agressivos. Lembro-me de uma rapariga estar sempre a mandar murros à parede e a enervar-se facilmente.

Prevejo que a nossa comunicação com eles vai ser um pouco difícil. E é engraçado que se não soubesse a história de vida de alguns deles perdia logo a vontade de fazer algo naquele local. Muitas vezes o que motiva é o facto de sabermos que estas crianças e jovens não são assim por vontade própria, digamos, mas porque várias condicionantes e histórias passadas e sua situação actual familiar influencia bastante a sua personalidade e maneira de ser. É como se não tivessem culpa da baixa auto-estima que têm, da agressividade que demonstram, da antipatia que são donos... Precisam mesmo de acompanhamento antes que seja tarde demais para reduzir esses pontos fracos.

Também têm pontos fortes, claro, têm um forte sentido de grupo e unem-se para atingir determinado objectivo, por exemplo. Gostei muito de os ver defender o seu ponto de vista em relação a um assunto que passo a explicar: alguns deles estavam a ensaiar uma dança para actuarem no dia de Sant Jordi numa festa que a vila vai realizar; a Olga propôs que “contratassem” um jovem para lhes ensinar uns passos para a dança, os jovens não queriam e diziam afincadamente que esse jovem (que pelos vistos já tinha dado um workshop de dança no “casal”) não dança o mesmo tipo de música que eles, e que não gostam dele e que querem fazer os passos por eles próprios. Todos do grupo da dança falavam e mesmo uma que não dançava enfatizava que concordava. Os argumentos que davam pareciam-me bastante inteligentes. E de facto, sou a da mesma opinião, porque haveria de vir uma pessoa de fora ensinar-lhes?? Assim, fazendo eles os passos, mesmo que a qualidade fosse muito inferior, tinham mais orgulho naquilo que estavam a fazer, sentiriam protagonismo, poderiam dizer “fomos nós que fizemos tudo sozinhos). Foi com esta opinião que questionei a Olga do porquê da insistência para vir o formador, ao qual ela responde que a ideia era juntar o útil ao agradável, digamos, já que esse tal rapaz que seria o formador também é derivado dos serviços sociais e está agora a tentar “encaminhar-se”, como sabe muito de dança queriam dar uma oportunidade a esse jovem. Isto claro, eram sugestões da GATS que os educadores deveriam tentar cumprir. Acho que muitas vezes, o que parece estar à frente destes “casais” e serviços assim mais institucionais é a vontade dos gestores e não das crianças e jovens, algo que considero errado.

Ao início da noite fui (juntamente com a Ana) a um workshop de não-violência. Tinham-me entregue o panfleto de divulgação à saída do metro no dia anterior e como conversei um pouco com a rapariga, fiquei curiosa (já que o tema por si só me interessa). O engraçado é que só eu, a Ana e outro rapaz é que estávamos a participar. Esse e o “formador” eram moçambicanos, então praticamente metade do workshop foi em português, se bem que eu insistia para ele falar em castelhano já que ele estavam mais habituado e nós precisávamos de aprender.

O workshop fazia parte de um conjunto de workshops sobre o tema não-violência e este era o 2º. O formador falou sobre uma regra de outro que deveríamos ter sempre presente: tratar os outros como gostasses que te tratassem a ti. Soou-me um pouco religioso, que não gosto, mas tentei ver as coisas por outro lado. Seguiu salientando que há vários tipos de violência: violência económica, violência religiosa, violência racial, violência psicológica (impõe formas culturais, por ex.), mas todas elas partem das relações humanas. Então a relação consigo mesmo é muito importante trabalhar.

Foi assim que introduziu, com uma voz calma e segura, o tema das virtudes, que era o tema que estava preparado para hoje. Pediu-nos para escrevermos num papel virtudes, qualidades, pontos fortes de nós mesmos. Lembrei-me das análises SWOT! Depois tivemos que escolher 4 das virtudes que nos identifiquem melhor e escrever sobre elas. Aquando finalizado, falamos sobre as nossas virtudes, coisa que para mim foi mais fácil do que o primeiro exercício, pois com uma explicação tudo parece mais perceptível.

A seguir a proposta foi que escrevêssemos virtudes de duas pessoas que conhecêssemos bem, como amigos e/ou familiares. Igualmente comentamos, embora não tivéssemos lido os nossos apontamentos. Foi engraçado que para todos, uma das escolhas foi a mãe. Quase a finalizar, eu escrevi qualidades da Ana e vice-versa, e o formador do outro rapaz, e trocamos “conclusões” com o nosso parceiro.

Para terminar, falamos sobre qual das tarefas foi a mais difícil; se é mais fácil encontrar virtudes em nós mesmos ou nas outras pessoas; quais são as dificuldades que encontramos; se costumamos dizer aos nossos amigos e familiares as suas virtudes... Gostei especialmente deste último ponto, já que ele sugeriu que há várias coisas que se podem fazer como dizer a pelo menos 5 amigos diferentes durante uma semana as suas virtudes; ou mesmo a pessoas que não conhecemos, mas que cruzamos com elas e trocamos palavras por breves momentos quando compramos algo numa loja, pedimos ajuda numa rua...

Respondendo à primeira parte da conversa, para mim o mais difícil foi escrever sobre mim, já sobre os outros era muito mais fácil. Sobre mim tenho dificuldade em dizer as coisas da forma como quero, é como se me conhecesse muito bem e então tudo parece-se demasiado complexo para passar para o papel... Com os outros consigo ser mais objectiva. Tentei até fazer o exercício pensado em pontos fracos e também é fácil. Isto claro, se tiver a pensar em familiares e amigos que conheço bem; embora tenha na mesma essa necessidade quase irritante de usar mais palavras que o próprio adjectivo para explicar melhor a tal qualidade ou defeito.

No fim, e já não sei como lá chegamos, acabamos por discutir diferenças entre humanismo e ecocentrismo, já que eles pertencem ao Movimento Humanista que defende o Humanismo que diz que o Homem tem de estar no centro de todas as preocupações. Ora eu dizia-lhes que achava essa posição antropocentrica, muito de superioridade do Homem em relação à Natureza e todas as outras formas de vida, sugerindo que talvez o ecocentrismo fosse uma melhor opção já que vê as coisas de uma forma mais holística, em que tudo está interligado e tem valor.


">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


21 de Março - terça-feira

Depois de um dia passado na biblioteca a pesquisar e a requisitar livros sobre o movimento okupa e movimentos sociais em Barcelona, fui à reunião semanal dos Ecologistas em Acção. Na sala só estava uma rapariga e um senhor. Fiz as apresentações necessárias e a rapariga disse-me que não estavam a ter reunião, porque um dos grupos da associação ía usar a sala mas que afinal estavam noutra e se eu queria ir lá ver. Ainda chegamos a espreitar à porta, estavam a ver umas projecções sobre energia e mas a falar em catalão. Mas por isso, porque eram muitos e porque ninguém me chamou, não quis entrar. Fiquei antes a falar com a rapariga sobre a associação na sala de reuniões. É uma espécie de fundação, pois reúne várias associações como associações de direitos dos animais, associações locais de ambiente... Trabalham por grupos de trabalho e fiquei a saber que em Barcelona o grupo mais activo e que costuma reunir semanalmente é o grupo da mobilidade e transportes. Deu-me os contactos tanto deste grupo como do grupo de consumo que ás vezes também faz umas coisas.

À noite fui ter com uma rapariga e um rapaz do Hospitality Club que estavam aqui de passagem e me tinha contactado. Eram austríacos e estavam a gostar muito de Barcelona. Ela ia de volta para Barcelona no dia a seguir pois estava em aulas, ele ia continuar a viagem para Marrocos onde ía ficar um mês a viajar. É de facto um facto como as pessoas de países mais a norte da Europa (assim como pessoas dos Estados Unidos e Canadá) viajam mais que nós do Sul. Não me sai da cabeça o que um foto-jornalista que esteve na ESEC a dar uma conferência sobre a sua volta ao Mundo: “em toda a minha viagem encontrei cerca de 30 dinamarqueses que estavam a viajar grandes distâncias, portugueses apenas 1”, algo deste género. Os portugueses, e também espanhóis, italianos e gregos, são mais agarrados à família e à terra Natal, se antes fomos uns aventureiros e ávidos de descobrir mais terra, hoje somos agarrados a esta e não nos queremos afastar dela por muito tempo. Um factor que também contribui é o económico, não temos em geral tanto dinheiro como os outros países que referi.

Lembro-me também de na nossa casa em Coimbra a maior parte das pessoas que recebemos tarem a fazer uma espécie de pausa no percurso académico. Ou seja, depois do secundário tiravam um ano para viajar, ou interrompiam a universidade. O famoso “taking a gap” americano e a ser cada vez mais adoptado noutros países. Eu cá acho uma boa ideia, viajar, foi das coisas com que mais aprendi. O não passado na Finlândia e o facto de ter conhecido tantos países e pessoas diferentes nesses meses enriqueceu-me muitíssimo. Começo a precisar de repetir.



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


20 de Março - segunda-feira

Hoje saí de casa bem cedo.

Comecei por visitar o CIAJ Centro de Informação e Assessoramento para Jovens (www.bcn.es/ciaj). É o serviço oficial de informação aos jovens da câmara de Barcelona. Outro dos serviços é o de associativismo e intercâmbios juvenis que podemos encontrar no Casal d’Associacions Juvenils de Barcelona. A página www.jovebcn.net é a página oficial da câmara de Barcelona dedicada à juventude.

O espaço CIAJ tinha muita informação disponível como jornais e revistas diversas, cartazes, panfletos de diversos centros cívicos e associações, um espaço de consulta na Internet, várias mesas e um grande mapa com os serviços de apoio a jovens existentes na cidade. Várias pessoas dirigiam-se ao “balcão de atendimento” e depois umas vi-as dirigirem-se para as mesas com um livro a consultar, ou a marcar hora na Internet, ou a serem atendidas durante mais tempo. Situações que explicavam o serviço do CIAJ de “assessorament” personalizado e de auto-consulta. Os temas são vários: alugar e comprar casa; procurar emprego; encontrar na cidade o curso e/ou oficina que procuras; informação sobre formação especifica; informação sobre apresentação de trabalhos e projectos pessoais; indicação de entidades que dispõem de serviços de apoio ao imigrante; divulgação de programas de intercâmbio estudantil; “viatgeteca” (uma espécie de biblioteca super especializada em viagens, com guias, mapas, videos, revistas...); informação sobre associações, ong’s, voluntariado; informação sobre saúde; divulgação dos centros sociais da cidade e informação sobre tempo livre e cultura em Barcelona.

Fiquei com a ideia que é sobretudo um serviço de reencaminhamento. Durante o pouco tempo que lá estive, estiveram também cerca de 5 pessoas, mais 5 na sala de Internet, e outras 3 de passagem, o que demonstra que é um espaço com uma boa frequência de pessoas. Talvez porque serviços de reencaminhamento e onde temos meios e recursos disponíveis para procurar aquilo que precisamos e queremos são sempre bastante úteis. Ainda para mais numa cidade com tanta oferta.

Reparei que ainda não disse o que fui lá fazer: saber alguns endereços de lojas de 2ª mão e aproveite para ver nas páginas amarelas onde ficavam vários endereços de algumas associações que procurava. Acabei por não obter o que queria nas lojas de 2ª mão. Primeiro porque encontrei poucas, e depois porque ou pareciam lojas de estilistas com peças caríssimas, ou porque estavam fechadas. Apenas queria ver bicicletas em 2ª mão e um casaco corta-vento (porque aqui em Barcelona há dias que dá uns chuviscos valentes). Em 2ª mão porque sou uma consumidora responsável e prefiro reutilizar do que estar a contribuir para mais um desgaste desnecessário de matérias-primas ou quiçá contribuir para o trabalho infantil, o trabalho precário e até mesmo para a exploração de povos.

Mesmo ao lado vi algo que me despertou a atenção: “Raval Text” era o nome do estabelecimento, através do vidro consegui avisar algumas mulheres a trabalhar em máquinas de costura e li na janela “empresa de inserção laboral”. Como vizinha estava a loja de roupa de 2ª mão que procurava, mas que estava fechada. Através do panfleto fiquei a perceber que a loja faz parte de um programa chamado “Roupa Amiga” (www.robaamiga.net) que através de vários contentores instalados na Catalunha recolhem roupas em 2ª mão. Este projecto é da Fundação “Um só Mundo” (www.unsolmon.org) da Obra Social da (www.caixacatalunya.es/obrasocial) Caixa Catalunha (que por sua vez é um banco). Juntamente com a Raval Text que arranja a roupa, abriram a Loja “Moda Amiga”. Assim, ao mesmo tempo que contribuímos para a inserção laboral de pessoas em situação de risco de exclusão, estamos a consumir responsável e ecologicamente.

Por falar em consumo responsável, fui logo de seguida a uma associação, a SETEM (www.setem.org/catalunya), ONG de solidarieadade internacional nascida em Barcelona em 1968, membro da Federação SETEM e da Federação Catalã de ONG’S para o Desenvolvimento. Têm uma loja de Comércio Justo onde comprei alguns livros e apercebi-me que um deles (“Guia para o Consumo Responsável de Roupa”) pode ser muito útil para a campanha eco-consumidor do GAIA, da qual sou coordenadora, dado que um dos temas trimestrais da campanha foi a indústria têxtil. Assim, perguntei se haveria a possibilidade de o GAIA traduzir o guia para português e distribui-lo em Portugal. Assim, acabei por falar com o coordenador da campanha “Roupa Limpa”, onde está inserido o guia, que, muito simpático, me disse que não haveria qualquer problema, e que o GAIA até podia fazer parte dessa rede (“roupa limpa”). Vou falar com o resto do pessoal do GAIA e propor que eu faça a tradução e mesmo a ingressão na rede.


>
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


19 de Março – domingo



Estava entusiasmadissima para esta calçotada, e com razão. Nem dormi para não correr o risco de adormecer.

A ideia desta calçotada era dar a conhecer ao público a horticultura em varandas e terraços e, de certa forma, promover a agricultura biológica em meio urbano. Assim, podemos encontrar várias oficinas práticas, como oficina de horticultura urbana e reutilização de plantas com vasos reutilizados, oficina de preparação do molho dos calçots, oficinas para crianças (de desenho, e de fazer aqueles bonecos feitos com uma meia e com serrim dentro onde em cima se colocam umas sementes de relva que se vão transformar no “cabelo”) e oficina de cozinha solar (que não chegamos a ver pois não havia sol suficiente). Havia um painel de um ecoclube de uma escola, expondo os seus trabalhos.

Segundo uma noticia no jornal estiveram presentes cerca de 240 pessoas, muitas das quais ligadas de alguma maneira à horticultura urbana.

Para mim foi bastante proveitoso dado que aprendi a reutilizar garrafas de água de plástico para plantar alfaces e outros legumes de uma maneira eficiente e prática, como podem ver na imagem. A tirinha laranja é apenas um pedaço de filtro que vai absorvendo a água e dando de beber à terra, com uma autonomia admirável.

Foi pena foi termos vindo embora antes de começar o almoço, porque a Marlene estava cansada de esperar e a mim não me apetecia estar por ali sozinha.

A actividade foi organizada pela associação “Lluïsos de Gràcia” pela Fundação Terra e pelo projecto Horturbà.

A associação sem fins lucrativos “Lluïsos de Gràcia” (www.lluisosdegracia.org), tem um âmbito sócio-cultural e desportivo, cuja missão é a formação das crianças, dos jovens e dos adultos no seu tempo livre. Segundo a senhora que nos atendeu quando lá fomos pela primeira vez, é uma associação já com mais de 150 anos e por isso têm bastante prestigio, muitos sócios e muitos apoios e assim mantêm o espaço enorme que tivemos a oportunidade de ver.

Embora começassem com actividades de carácter religioso e espiritual, agora têm um âmbito muito mais abrangente, realizando exposições diversas, oficinas e cursos, aulas de catalão, um serviço estilo “ATL”, festas, cujo algumas são organizadas em colaboração com outras entidades. É também no espaço da “Lluïsos” que vários colectivos e associações encontram infra-estruturas adequadas para realizar eventos. Com todas estas actividades e eventos, tentam atingir os seus objectivos principais: desenvolvimento dos valores humanos de cada um (como a solidariedade, a tolerância, o civismo e o respeito), fomentar o crescimento pessoal e colectivo e o aprofundamento da fé.

É de salientar que foi das primeiras associações que vi com um horário tão extenso (durante a semana fecha à meia noite; à sexta e sábado à uma da manhã, por ex.). É um factor bastante positivo dado que assim a população local tem um espaço colectivo aberto bastante tempo e há assim mais oportunidades para aqueles que trabalham até tarde ou têm um horário menos comum poderem também usufruir de cultura e lazer.

Sobre a associação Terra já falei aquando da festa da água.

Quanto ao “Hortubà” (http://www.horturba.com), ou em português “horta-urbana”, é um projecto que me atrai muito. Se as pessoas não vão ao campo, há que trazer o campo à cidade. Nada melhor que os terraços, as varandas, ou as pequenas hortas comunitárias. Já dizia o Bill Molisson que a permacultura está mesmo debaixo do nosso nariz. Podemos substituir permacultura (que explicarei noutra oportunidade o que significa) por agricultura e entendemos que o que Molisson quer dizer é que é mais fácil do que parece fazer aquilo que à partida parece ser só possível num grande pedaço de terra.

Numa altura em que cada vez se fala mais em agricultura biológica, em consumo local, em vegetarianismo, em economia social, ou dito de outra forma, fala-se também em poluição, transgénicos, gripes das aves, materialismo, consumo insustentável, nada melhor que nós próprios cultivarmos os nossos alimentos. E não é a alimentação parte essencial do nosso dia-a-dia? Devemos então entender tudo o que esta implica e o que está por trás dos nossos actos quotidianos, dando a devida atenção a algo tão inevitável como comer. Daqui nasce a necessidade de cultivar para obter essa alimentação mais responsável e consumo ecológico.

Se antes todas as pessoas tinham um quintal em casa e a agricultura era a base de subsistência de muitas famílias, hoje já muitas vivem em grandes cidades e sem quintal. No entanto, para consumo próprio não é necessário grande espaço, e assim surgem as hortas urbanas, que estão pensadas para produzir pequenas quantidades de verduras variadas e assim, através de um cultivo biológico, sem utilização de fertilizantes químicos e insecticidas, colmatar tudo o que foi dito anteriormente.


Quando a esta ideia se junta o aspecto comunitário, ainda melhor, já que em grupo se aprende mais, partilham-se ideias e enriquecesse o resultado final. No Porto há um projecto de hortas comunitárias em bairros sociais. Há também um projecto da Lipor chamado “Horta à Porta” que disponibilizada talhões de terra às pessoas e um pequeno curso de agricultura biológica para elas levarem avante o cultivo do pequeno pedaço que lhes calhou e produzirem assim para auto-consumo.



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


17 de Março - sexta-feira


Hoje a tarde foi passada na biblioteca a pesquisar informação.


À noite saí com a Marlene, com as outras portuguesas, com o J. (o tal meu amigo catalão), com um amigo dele e com umas raparigas lituanas do Hospitality Club que estavam
hospedadas na casa dele.

Primeiro fomos ver o que se passava na Rambla do Raval por causa do Botellón. É incrível como os meios de comunicação movem massas. Em Sevilha uma mensagem convocando um “Macrobotellón” para celebrar o fim dos exames correu rapidamente e foi tanta a gente que apareceu no local que a polícia não conseguiu impedir a festa. Depois do “alarido” nos meios de comunicação (a minha mãe disse-me que viu em Portugal na Tv e tudo!), Sevilha convoca outro Macrobotellón para o dia de hoje. Assim também o faz Granada e outras cidades espanholas, e como não podia deixar de ser, Barcelona.

Os objectivos são ao mesmo tempo criticar o preço absurdo das bebidas nos bares (e assim levar as bebidas de casa) e criticar a nova lei de convivência cidadã (que entre outras coisas, como urinar na rua e jogar à bola, proíbe beber na rua em grupo).

Fomos um grupo de cerca de 7 pessoas, e todas as entradas da Rambla do Raval estavam barradas pela polícia, que verificava se não levávamos bebidas connosco. Na Rambla estava muita confusão, muita gente já bêbada, outros a tocar música, e uma personagem completamente bêbada a queimar a sua própria roupa. A policia aproxima-se, alguns tiram objectos não identificados a essa, que também não tem a fama de ser muito pacífica. Aliás, acho que a polícia da Catalunha tem fama de ser das mais repressivas. E como nestas coisas há sempre aqueles que se exaltam e que armam confusão, que muitas vezes acaba mal, lá nos fomos afastando.

Fomos a uns bares engraçados e depois à discoteca do outro fim de semana, onde o português que lá trabalha nos tinha colocado na guest list (e assim não pagamos, já que sair à noite em Barcelona fica caro).

Pelo caminho, por volta das 3h da manhã, nas Ramblas, a confusão da noite do Botellón ainda continuava... Baldes do lixo deitados, entradas do metro destruídas, vidros de estabelecimentos partidos... Mesmo no meio do passeio das Ramblas, em frente à esquadra da policia, sentia-se gás lacrimogéneo (penso eu) e via-se um cordão de policias com o escudo bem visível...


Acabamos a noite já de manhã, na amena cavaqueira pelas ruas de Barcelona com um francês, um rapaz de Maiorca e um catalão. Momento bastante engraçado! O rapaz francês era muito simpático, o catalão era guia turístico e até nos deu o número dele, e o outro parecia um desenho animado, fazia umas expressões tão engraçadas que até lhe aconselhei a fazer teatro!

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


Quinta-feira, Abril 27, 2006

18 de Março – sábado



Hoje não podia ter faltado à manifestação contra a guerra. Vou sempre, basicamente, porque sou contra todas as guerras. E isso já constitui motivo mais que suficiente para marcar presença, para fazer número, para que em vés de 351, sejamos 352 (ou mais, dependendo daqueles que consigo influenciar a ir também). Pode parecer que não faz qualquer diferença, mas se todos pensamos assim, ninguém participaria em manifestações. E bom relembrar que esta participação é uma forma de democracia participativa, que muitas vezes remitimos apenas para o voto. Eu cá ás vezes prefiro ser uma má cidadã e não votar, mas participar em todas as outras formas de cidadania: petições, boicote, voluntariado, associativismo...
Falando agora desta manifestação em especifico, foi convocada a nível internacional para marcar o inicio da guerra contra o Iraque 3 anos atrás. Para relembrar o inicio de uma guerra que ainda não acabou. E para dizer basta também a outras guerras como a ocupação da Palestina.
Na Catalunha foi convocada pela Plataforma “Aturem la Guerra” (“parem a guerra” – www.aturemlaguerra.org) pois o povo iraquiano continua a lutar pela libertação do seu país das tropas americanas e o governo da Catalunha, foi um dos que votou na ONU a favor da ocupação do Iraque. Por isso neste dia reuniram-se cerca de 5000 pessoas num percurso cheio de bandeiras, faixas e tambores pela cidade de Barcelona.
Em relação a Portugal, também existiram manifestações pela paz neste dia no Porto e em Lisboa. No Porto, dia 20 de Março, o manifesto continua, com uma espécie de encontro de activistas pela paz que vão fazer uma acção de sensibilização. À noite, há a projecção de um filme alusivo à temática da Guerra e Militarismo. Tudo organizado pela rede RISEUP (http://riseupfest.blogspot.com/), que passo a explicar, nasceu pela mão do GAIA quando sugerimos um ciclo de filmes sobre globalização e ambiente. Mas que cresceu com a inclusão de outras organizações (Aacilus, Forum Activix, GAIA, SOS Racismo) e pessoas a titulo individual que também organizaram o ciclo de video e começam agora a pensar em mais acções em conjunto, sempre na mirada da crítica ao capitalismo e à globalização neoliberal.

Também com a Ana e a Helena fomos à festa da água no Arco do Triunfo, festa organizada pela câmara de Barcelona.
A Associação Intermón Oxfam (http://www.intermonoxfam.org/) também foi muito simpática. Começou a falar connosco em catalão e eu estava a perceber tudo. Como me parecia, a associação pertence a uma confederação global de 12 ONG chamada Oxfam Internacional. Em Espanha nasceu em 1997, tendo já vários grupos espalhados pelo país, onde o de Barcelona é um dos mais fortes, com imensos núcleos locais na região autónoma de Catalunha. É uma associação de desenvolvimento e cooperação com os países do Sul. Sendo assim, têm vários projectos de desenvolvimento espalhados, projectos de ajuda humanitária e prevenção de emergências, de sensibilização e mobilização social e comércio justo.
É de notar que todas as associações ali presentes, mesmo as com um campo de acção bastante diversificado, estavam ali para mostrar as suas actividades em relação à água.
Admiravelmente a Greenpeace (www.greenpeace.es) também estava presente, disse que lhes enviei um e-mail a perguntar como podia colaborar com a associação e que eles não me tinham respondido. Expliquei que era de Portugal e que aí participava numa associação ambiental, que estava em Espanha a estagiar e que gostava de participar activamente nalguma associação ecológica enquanto cá estivesse, embora não tivesse muitos conhecimentos técnicos na área do ambiente e não falasse catalão. Disseram que podia participar, para aparecer numa das reuniões que se realizam (apenas) uma vez por mês e que me enviavam um e-mail com mais pormenores.
Havia também no recinto uma associação que já tinha ouvido falar pois estava na organização da Calçotada Urbana. Chamava-se Fundação Terra (http://www.terra.org/) e em resposta às minhas explicações e pedido, disseram que eram uma associação mais académica e técnica e que se calhar os meus conhecimentos não eram importantes e que era melhor falar com a Ecologistas em Acção. Nem sei se foram brutos ou eficientes!
E claro que falei com a Associação Ecologista em Acção, onde frisei que já tinha ido à sede e enviado e-mails e sempre sem conseguir uma resposta. Foram muito simpáticos, disseram para aparecer numa das reuniões na sede pois as pessoas que estavam na banca eram apenas do grupo de trabalho da água. Ficaram com o meu e-mail para me contactarem e fiquei especialmente contente quando em resposta ao meu relembrar que não sabia falar muito bem castelhano, a rapariga disse algo como “mas estás a falar, caramba!”.
Quanto às oficinas presentes, eram várias, mas desta vez, ao contrário da Festa do Consumo Responsável, estas não eram só levadas a cabo pela câmara mas também por diferentes associações. Havia uma oficina “as gotas do mundo”, na qual uma rapariga me explicou que apenas as crianças tinham de ligar a palavra água em diferentes línguas ao país que correspondia. Não achei lá muito didáctico.
Havia também as oficinas “alertar para as inundações”, “faz um peixe com a tua mão”, “chapa solidária”, “o jogo da água limpa”, “ajuda-me a transportar a água” (caminho pequeno, tabuleta com quilómetros, transportar um garrafão grande de plástico), “a poça das grandes ideias” (com ideias escritas ou desenhadas nas gotas de água), “o rio que tu pintas”, “os sentidos da água” (ouvir, provar...), “os segredos do rio”...
Vim embora contente com um crachá a dizer “a água é de todos” com uma gotinha muito mal desenhada e pintada por mim.

Por volta da hora do jantar fomos todos, juntamente com um casal catalã amigo do J. petiscar a um bar (o tal Antic Teatre) onde comi um “panecito releno” (escrevo o nome para pesquisar pois era muito bom) e descobrimos mais um português (rapaz que lá trabalhava)! Esta cidade tem mesmo bastantes portugueses; não é que tenha encontrado muito, mas é também o que toda a gente catalã que conheço afirma.
Íamos todos ver um concerto integrado na programação da festa da água. Era um grupo de flamenco fusão (“Gertrudes”), aconselhado pelos catalãs que nos acompanhavam, mas estava a chover e portanto não houve concerto para ninguém!
Lá decidimos ir conviver para uns bares mas desta vez para a freguesia da Grácia. E o bairro tem o mesmo encanto que de dia, com inúmeros bares tranquilos. Parece mais uma zona de sair à noite para conversar e não para dançar! Bastante agradável.
Eu, a Ana e Helena viemos a pé para o centro da cidade, já que o metro aqui fecha às 2h ao fim de semana e só volta a abrir às 5h. Gosto sempre de ver cidades à noite, parece que as coisas são diferentes, repara-se melhor nos edifícios e sua arquitectura...
Aquando no centro, nas Ramblas (a artéria mais movimentada da cidade em qualquer hora do dia), estávamos com fome e decidimos procurar algum estabelecimento aberto. Ora nem pequenos restaurantes, nem mini-mercados, nada estava aberto. Fiquei super admirado porque eram 3h30m e nada estava aberto numa cidade com tanta gente e com uma noite tão concorrida como Barcelona.

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments



Segunda-feira, Abril 24, 2006

16 de Março – quinta-feira

Hoje também aproveitei para ir de novo à Caixa Fórum, desta vez sozinha, ver um documentário inserido na mesma iniciativa. Chama-se “The Peacekeepers and the Women” que nos dava uma visão (aliás, duas) sobre como as forças armadas e as organizações políticas tenta resolver problemas como o tráfico de mulheres e consequente exploração sexual. Mostrou claramente como às vezes as campanhas de grandes organizações políticas, como a campanha “Stop” da Onu, não têm em conta as verdadeiras necessidades das pessoas e misturam diferentes contextos.

E como é quinta feira, fui ao centro cívico Drassanes ver mais uma das peças de teatro de marionetas, onde também acabei por vê-la sozinha por me ter desencontrado com a Marlene. No entanto, a peça valia mesmo a pena, já não me lembrava de assistido a algo tão original. Chamava-se “Micromental-World” de Zia Guantazo. A 1ª parte era teatro-clown onde apenas uma rapariga (bem vestida e com um nariz de palhaço) ía introduzindo o tema (materialismo versus relações humanas). Na 2ª parte deu-se o clímax da peça, onde a sala estava completamente escura e no palco uma estrutura negra nos deixava apenas ver 6 luvas brancas (com o auxilio de uma luz negra). 4 delas formavam uma cara, e outras duas as mãos de um corpo. Víamos assim uma personagem, que ao mesmo tempo que ouvíamos um determinado som, desaparecia num ápice e dava lugar a outra personagem (que igualmente só víamos cara e mãos, tudo “construído” através das mãos dos actores – que não víamos, porque estavam vestidos de preto). Era assim uma vultar personagem a tentar perceber porque não conseguia instalar o “amor” no seu coração. Telefonava assim para alguém da empresa (Micromental world) do site www.procuroamor.com (ou algo do género) a pedir auxílio. Do lado esquerdo da estrutura podíamos seguir o desenrolar da história: o envio de sentimentos (ficheiros) como a possessão e o egoísmo para a “reciclagem”, o coração a recuperar, e o fantástico final que nos diz algo como “o amor não pode ser mecanizado”. No fim o público não parou de bater palmas o que demonstrou que eu não fui a única a adorar! Estava bastante criativo e, no fundo, simples.

Um pormenor um pouco desconectado de tudo o resto: o CCCB (Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona) organiza “itinerários urbanos para oferecer uma visão critica às transformações da cidade de Barcelona e à sua área metropolitana e os novos desafios que se vão assumir: a coesão social, a herdade cultural, a regeneração ambiental, a qualidade do espaço público, as redes de comunicação, etc.; li num panfleto que recolhi no centro cívico. É incrível a quantidade de actividades educativas que esta cidade oferece.


">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


15 de Março - quarta-feira

Hoje fomos ver pela primeira vez umas projecções sobre violência de género e doméstica na Caixa Fórum. Quer dizer, na obra social da Fundação “La Caixa”. É que aqui já não é a primeira vez que vejo bancos (como a Caixa Fórum, a Caixa Catalunya e a caixa Tarragona) que tentam demonstrar uma forte responsabilidade social.
“Cárcel de Amor” – relatos culturais sobre a violência de género (www.carceldeamor.net/vsc) é o nome do projecto que terá lugar durante os meses de Fevereiro, Março e Abril e inclui 3 mesas redondas (uma sobre ficção e realidade, outra sobre realidade e comunicação e a última sobre violência virtual, todas elas referentes à violência de género), um programa de cinema e video, uma publicação e a página web.
Dos 5 documentários e curtas que vimos a que mais gostei foi “Survivors” (de Sheila M. Sofian), onde através da animação (desenhos animados) nos mostram algumas entrevistas a pessoas vitimas de violência doméstica. Denote-se o título do documentário “sobreviventes” que demonstra o seu carácter de conceder protagonismo às mulheres, que não são vitimas, mas sim sobreviventes, transportando esse carácter negativo e pessimista da vitimização para um mais positivo e que felicita o esforço e coragem destas: sobreviventes.
Durante e depois das curtas reflecti sobre o facto da violência doméstica e de género, serem sobretudo problemas sociais. E que mais que a ajuda psicológica às “vitimas” destas violências, há que ir à raiz dos problemas, que está na sociedade. Ou seja, o problema está na ideia geral que se tem das mulheres e do seu papel. Ainda vivemos numa sociedade machista onde a mulher é associada a várias tarefas especificas (lidas domésticas, cuidar dos filhos...) e as ideias pré-concebidas são imensas (conduzem mal, são mais fracas, não têm jeito para as engenharias...).Tudo isto pode ser a génese e contribuir para todos os problemas associados. Se uma mulher sofre de violência doméstica, o facto de viver numa sociedade que para além de machistas, é sexista, matriarcal, religiosa e materialista, não ajuda, dado que os vizinhos, a igreja, e mesmo as leis existentes são fortes influências e pressões sociais, que podem levar mesmo ao agravamento da situação, se a mulher tem medo de pedir ajuda.
Claro que os serviços de ajuda e acompanhamento são essenciais, mas também o são as campanhas de prevenção. Aqui, a animação sócio-educativa pode ter um papel importantíssimo.


">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


Sábado, Abril 22, 2006

14 de Março - terça-feira

Hoje foi os anos da Marlene e ela lá saiu de casa, dado que tem tendência para ser mais caseira e só sai quando realmente tem algo mais concreto para fazer. Eu sou mais de sair à procura de algo para fazer: uma exposição, um passeio, uma conversa com alguém.. Já que nesta cidade há sempre imensas coisas a acontecer.
Fomos ao famoso Parque Guël! E talvez exactamente por ser famoso e por estar tanta gente a visitá-lo (principalmente grupos de crianças em visita de estudo), eu fiquei bastante desapontada. Estava à espera de um jardim cheio daquelas formas orgânicas e azulejos coloridos de Gaudi, mas não, só estavam à entrada! E o jardim em si não era nada de especial, apesar de como era num ponto alto, tinha a vantagem de ser ter uma vista sobre toda a cidade. Só que digamos que a vista não é das mais agradáveis, não pela vista em si, mas por causa do número razoável de construções em altura na cidade, dos edifícios despersonalizados e da (in)existência de poucas áreas verdes.
No entanto, resolvemos dar um volta pelo bairro onde estávamos – Grácia – e é bastante bonito. Agora tenho mais uma praça favorita na lista: Praça da Virreina! E o bairro tem casas bonitas e ruas estreitas! Gostei!
Fomos parar a uma praça (praça del Nord) onde visitamos uma instituição (Luïsos da Grácia) que chamava bastante a atenção (pois era um edifício bastante grande e bonito) onde tivemos a felicidade de encontrar um panfleto anunciando uma “2ª calçotada d’ horticultores urbanos” e inscrevemo-nos, pois era bastante económica e incluía diversos worskhops. Além do mais, era algo organizado com preocupações ecológicas, para divulgar um projecto de horticultura urbana, onde todos os produtos seria biológicos, onde até haveria seitan em vez de carne (para quem fosse vegetariano) e onde era pedido aos participantes que levassem os seus próprios utensílios (prato, talheres e copo).
Ainda tivemos tempo para irmos ver uma peça de teatro-clown num centro cívico perto de casa (Centro Cívico Casinet Hostafrancs), sobre mulheres e imigração, integrado exactamente na programação da comemoração do Dia da Mulher do “Concelho das Mulheres do Distrito”. Mais uma vez, muitas mulheres assistiam, aliás, só mulheres (excluindo um senhor que estava na 1ª fila mas que participou também na peça, pelo que penso que tenha sido propositado). Não sei se ajudava o facto do centro cívico ter um Casal de Gent Grand...
A peça foi bastante interessante e engraçada! Praticamente só com uma personagem, uma mulher imigrante acabada de chegar a Espanha, e que nos contava de forma irónica e crítica os seus primeiros dias de integração, num espectáculo que misturava e intercalava a mímica com o clown, o palco com o público, a fala da personagem com as vozes gravadas, a personagem com o técnico de som....
Ao final do dia houve um pequeno convívio cá em casa. Vieram também as portuguesas. Cantamos os Parabéns. Comemos bolo. E jogamos uns jogos de grupo.

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


13 de Março - segunda-feira

Hoje tive uma boa noticia: os meus pais e irmão vêm cá de 23 a 27 de março. Vai ser bom mostrar esta cidade à família e pôr as noticias, e a saudade (claro está) em dia.
À noite fui ver um filme com o J. à filmoteca. Como eu gosto de filmotecas! Passam filmes antigos ou menos recentes, e tenho pena que no Porto ou Coimbra não haja nenhuma (só há na capital, claro). Fui ver “Easy rider” e como tinha bastantes expectativas, fiquei desiludida.

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


12 de Março – domingo




Como à Marlene apetecia-lhe ficar a dormir mais um bocado e a mim não me apetecia ir sozinha para CanMasdeu, resolvi ir à tal festa do consumo responsável. A “II festa do consumo responsável” organizada pela “generalidade” de Barcelona, mais propriamente pela “agência catalã do consumo” (www.consumcat.net) cujo lema era “Tens molt, molt a prop” que penso significar algo como “tens muito, muito perto de ti”. Este é um dos conceitos que a câmara promove mais, não tanto pelo seu teor ecológico (pois ao consumirmos produtos locais estamos a encurtar a distância entre produtor e consumidor, anulando intermediários, menor transporte, e assim consumindo menos recursos e poluindo menos) mas penso eu que pelo seu teor económico. É que é uma forma de apoiar a economia local e fazer com que a região se torna ainda mais rica. Lembro de uma das oficinas presentes com uma espécie de puzzle cuja base era a região da Catalunha e as peças de encaixe vários produtos locais de cada região, onde cada jogador tinha de identificar que região produzia o quê. Eu pensava que era o mesmo jogo mas para toda a Espanha. Mas não, o que queriam transmitir é que se deve consumir o que é da Catalunha e só da Catalunha. É o reflexo do seu nacionalismo. É que temos que ter em conta que é uma festa organizada pelo governo da região autónoma da Catalunha, de esquerda nacionalista, e logo estas festas também têm muito de fachada e claro, de através de umas coisas promoverem outras.
Na festa, que se situava numa das praças principais da cidade, mesmo em frente à catedral, havia animação de rua, música, teatro, magia.... Havia dois palcos no local para o efeito, mas também algumas bancas de associações relacionadas com o consumo responsável e direitos do consumidor. Fiquei admirada de não haver quase nenhuma associação ecológica.
No resto do espaço, encontrávamos uma exposição interactiva de brinquedos reutilizados (ver panfleto em portfólio) com madeiras, arames, garrafas, em que miúdos e graúdos se divertiam a tentar resolver os pequenos quebra-cabeças; e também diversas oficinas promovidas pela câmara (para as quais contratavam monitores e educadores) de promoção dos 3 r’s (reduzir, reutilizar e reciclar), a maior parte dirigidas a crianças. A primeira era um labirinto que as crianças percorriam ao mesmo tempo que tinham de realizar várias actividades de consciencialização dos 3 R’s. Outro que achei bastante interessante, também não o percebi bem, mas a sua interactividade marcava a diferença. Havia uma espécie de atlas no chão, dentro de uma espécie de recinto, e vários objectos soltos como uma barra de chocolate, um saco de cereais, haviam também vários ganchos que saíam de diferentes regiões e umas cordas que se conectavam aos ganchos. As crianças estavam em cima da estrutura com uns sapatinhos de plástico (para não sugarem), e se no principio estavam atentas sentadas na América Latina a ouvir as explicações (ou história) do monitor, depois estavam de um lado para o outro a conectarem cordas e ganchos com os objectos. Acho que o objectivo era perceberem de onde os produtos vêm e que muitas das coisas que consumimos na nossa casa vêm do outro lado do Mundo e os custos ambientais e sociais que isso acarreta. Se não era esse o objectivo, com uma estrutura daquelas, bem podia ser!
Mais 2 oficinas podíamos encontrar no espaço. Uma onde havia um painel grande com vários objectos desenhados e à parte um série de etiquetas que tínhamos de anexar aos objectos, de forma a compreendermos melhor as etiquetas e a termos a preocupação de as ler. A outra devia ser patrocinada por um jornal da Catalunha porque de um lado vários jornais, uma mesa, e várias folhas de jornais penduradas numa corda e do outro lado vários origamis feitos com folhas de jornais que as crianças iam fazendo com a ajuda dos monitores.
Todos estes workshops me pareceram bastante interessantes (uns mais que outros) mas não tive oportunidade para os perceber melhor porque eram dirigidos às crianças e os monitores estavam ocupados com estas. Mas descobri que essa tal Agência Catalã do Consumo tem uma escola do consumo responsável que recebem grupos escolares e outros grupos de crianças e jovens para participarem nas oficinas que realizam no espaço da agência em Barcelona. Tenho que enviar um e-mail a perguntar se posso visitar e se me podem explicar as oficinas.
A nível de informação, a que tinha mais visibilidade era a da Agência catalã do consumo, com bastantes painéis informativos. Distribuíam também uns panfletos (em anexo no Portfólio) dentro de um saco de plástico, que desde logo é pouco ecológico.
Outros pontos negativos foram o facto de ter sido a um domingo de manhã, onde havia mais turistas que pessoas locais, e de todas as bancas estarem a distribuir algum “brinde” o que fazia com que se aglomerasse um amontoando de pessoas só em busca do brinde e que incomodavam quem realmente estava também interessado na informação.
Mais para meio da tarde, depois de ter chegado a casa, fui com a Marlene dar um passeio a Montjuïc. É incrível como estamos aqui há quase um mês e nunca tínhamos ido lá. Foi a partir de Montjuïc, uma pequena montanha ao lado do mar, na zona Sul da cidade, que esta nasceu. Pensava então que ía ver algo mais típico, como que uma espécie de zona antiga, mas não. É uma zona bastante verde, onde basicamente o que há para visitar, além das áreas verdes (como o jardim botânico e outros) é o estádio nacional dos jogos olímpicos de 1992, a cidade do teatro (um conjunto bonito de 3 ou 4 teatros), o Pueblo Espanhol (espécie de Portugal dos Pequeninos para adultos, recriando arquitectura típica de diferentes regiões Espanholas), e o Palácio Nacional que alberga o Museu de Arte Nacional da Catalunha, e de onde em frente tive a melhor vista de Barcelona.

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


Quarta-feira, Abril 19, 2006

11 de Março


Hoje o dia foi “formativo”! Fomos a um curso de audiovisuais para prevenir a violência doméstica, no Centro Cívico Can Basté (em Nou Barris). Estava entusiasmada pois normalmente os cursos e oficinas são sempre em catalão, mas informei-me e este iria ser dado em castelhano pois a senhora é americana e não sabe catalão muito bem.

Éramos cerca de 8 participantes, tudo senhoras com uma certa idade. É incrível como o movimento feminista aqui é tão forte e muitas mulheres mais velhas fazem dele parte.

A formadora, inglesa, começou por falar um pouco da importância dos meios audiovisuais na transmissão de mensagens sociais. Ultimamente fala-se muito nos documentários, mas estes têm a desvantagem de não se poder registar aspectos mais sensíveis (devido ao respeito para com as pessoas que muitas vezes não querem ser filmadas), enquanto que a ficção já dá essa hipótese. As curtas-metragens são um dos meios audiovisuais mais usados com esse fim, pois chama a atenção de algo num curto tempo.

Existem muitos recursos audiovisuais que podem voltar a ser usados, isto é, há vários Centros de Documentação que vendem material educativo. Há um Centro de Documentação em Londres, que a formadora aconselhou, que se chama Extreme Information (http://www.xtremeinformation.com/). É incrível como há tanta coisa disponível. Eu aqui quero tentar arranjar alguns filmes fixes, daqueles mais domésticos, feitos por associações e assim, para depois poderem ser usados em Portugal no âmbito do GAIA e das projecções de filmes que ás vezes realizamos ou noutros âmbitos claro.

Primeiro vimos uma série de curtas-metragens sobre prevenção da violência doméstica.

Começamos por uma muito simples onde no ecrã víamos apenas um pano (como uma cortina), sem qualquer ruído de fundo, no fim uma mensagem do género: por detrás desta cortina uma mulher está a ser esfaqueada pelo seu marido. Não faças de conta que não sabes de nada.

Está certo que as pessoas muitas vezes não querem ver, mas neste caso da violência doméstica a ideia que tenho é que muitas vezes não se vê, logo não se pode dizer que as pessoas são indiferentes, na minha opinião, porque é algo escondido pelas pessoas que a “sofrem”.

Algumas curtas eram muito simples e pequenas, como esta, só com uma mensagem final indicando um número de telefone de denúncia ou de apoio. Outras divulgavam números assustadores: 1 em 4 mulheres são vítimas de violência doméstica.

Na segunda parte estivemos a ver o “Making Of” de uma telenovela da Nicarágua que trata de temas sociais. Chama-se “Sexto Sentido” (www.puntos.org.ni) e achei uma ideia mesmo fantástica. É que aproveitam-se do facto de na Nicarágua as pessoas serem aficcionadas por telenovelas para modelarem os comportamentos dessas, concederem-lhes novas formas de analisar a realidade e tomar decisões. Já que as pessoas consomem telenovelas, que consumam algo com qualidade, algo que lhes influencie positivamente e lhes faça pensar.

A telenovela aborda vários temas sociais como abusos sexuais, homossexualidade, alcoolismo, violência doméstica, através de 6 personagens, jovens de diferentes condições sociais. Mas sem rodeios, sem quaisquer preconceitos. Quer ser uma telenovela radical, indo à raiz dos problemas.

É um projecto financiado por diferentes entidades e um projecto barato (que faz “cair” aquela ideia/frase tão batida: “não há dinheiro!”). Com o mesmo financiamento de um episódio de “Friends” (Sitcom) produzir-se-ão 432 episódios de “6º sentido”. Além do mais, é a única novela emitida na Nicarágua que é completamente rodada no país, com uma audiência de 70% ao domingo (dia em que se vê mais televisão no país).

Para além de todos estes pontos positivos, o guião foi escrito por um jovem mas com a participação de muitos outros e os actores são também jovens que não tinham experiência no mundo da representação. Foi um projecto que partiu e contou com a colaboração de várias organizações base feministas e de direitos humanos. Um autêntico projecto de protagonismo juvenil.

Não só a elaboração da novela não foi um trabalho fácil, como a sua receptividade por parte do público também foi difícil. É que Nicarágua é um país bastante conservador, onde se pode ir para a prisão se se tiver relações com alguém do mesmo sexo, por ex. Então esta novela criou muita agitação, o que desde já é bastante positivo, pois trouxe certos assuntos à discussão.

Vimos também um excerto da série da novela que trata o tema dos abusos sexuais, que a organização do projecto usa para debater nas escolas. Exactamente, o projecto não se fica pelas novelas, e até o jovem que encarna a personagem de homossexual vai às escolas falar do seu papel e discutir o tema da liberdade sexual.

A única coisa que tenho a acrescentar é que com jovens, a minha opinião é que se deve trazer as coisas para um panorama mais prático e real. Pois só se costumam abordar esses temas mais sociais através de casos mais “dramáticos” que muitas vezes não fazem parte da realidade de muitos jovens. Uma novela, um filme, seja que meio audiovisual for, conseguir conjugar essas duas vertentes, conseguirá atingir um número muito maior de pessoas. Não sei se esta novela o consegue, mas de qualquer das formas, é uma ideia fantástica e que deve ser “imitada” em todos os países, com as suas adaptações claro está.

Os meios de comunicação são assim potencializadas ao máximo, porque são pensados para atingir social e educativamente massas (em vez de grupos-alvo mais pequenos ou específicos), e aí é que está a inovação deste projecto, que pode abordar outros temas sociais como Direitos Humanos, Imigração, Ecologia, dependendo das necessidades do país.

No final, a formadora relembrou-nos que é muito fácil e enriquece uma mensagem, o uso de audiovisuais. E não é preciso ser um profissional para se conseguir transmitir uma mensagem através desses meios, como muitas vezes se pensa. (Há até concursos para curtas realizadas com câmaras de video de telemóvel! )

Os audiovisuais podem ser meios mesmo eficazes e há que rentabiliza-los. É que muitas vezes, as coisas quando se vêm têm mais impacto que quando ouvidas ou lidas. Assim, meios audiovisuais são óptimos recursos na animação sócio-educativa. Uma boa curta-metragem, por ex., pode impulsionar o debate de um tema; ou um video que regista uma actividade em especifico de uma associação, ilustrar com fidelidade o trabalho desta e assim auxiliar uma apresentação pública da associação.

Saí de lá com ainda mais vontade de aprender mais sobre video e edição de imagem.

Antes de ir para casa ainda vi uma exposição de fotografia no mesmo local intitulada: “Barcelona sobre Barcelona. Espaços de conquista 2002-2005”, basicamente sobre o processo de transformação urbano e tudo o que ele implica e traz: destruição, resistências, etc. É que todas (as poucas) explicações estavam em catalão e dificultou a compreensão. Mostrava-nos o bairro de Poblenou e suas novas requalificações, protestos na Cidade Velha e a repressão e brutalidade nas ruas de Barcelona.

É sábado à noite, mas não vou sair. Amanhã, e apesar de haver uma festa do consumo responsável no centro da cidade organizada pela câmara, (as escolhas começam a ser difíceis), vamos a CanMasdeu (a tal okupa muita activa na montanha). É que se não, adiamos adiamos e nunca mais vamos lá.



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


10 de Março

O nosso envolvimento com a GATS parece começar a andar para frente.

Hoje conforme ficou combinado, encontramo-nos com a Mar em Sants e fomos com ela visitar o seu local de trabalho. Cerca de 30 minutos no comboio e chegamos a Allela, uma pequena povoação que pertence à freguesia de Masnou, no distrito de El Maresme, portanto, noutra cidade nos arredores de Barcelona.

A Mar explicou-nos que o governo da Catalunha exige que cada distrito tenha um Plano da Juventude, financiando-os. Por esta razão, em Allela existe o Àgora Ponto de Informação Juvenil (www.diba.es/agora) e o Casal de Jovens Can Gaza (www.alellajove.info), onde a Mar trabalha como educadora social. No primeiro espaço, para jovens e jovens adultos, que visitamos, também trabalha uma educadora social. Esta explicou-nos que ali, apesar de um espaço agradável, com mesas, cadeiras e alguns computadores com Internet, os jovens não vão muito. É uma espécie de ponto de apoio aos jovens, com viajateca (se querem viajar encontram ali muita informação relativa como inter-rails, pousadas da juventude...), orientação vocacional, intercâmbio, associações, actividades culturais. Funciona também um pouco como serviço de encaminhamento, onde se têm uma dúvida mais especifica, a função da educadora é reencaminhá-lo para um serviço mais adequado ou fornecer os meios para encontrar a informação.

O Plano da Juventude também obriga a que a freguesia tenha um espaço para crianças e jovens adolescentes, e assim nasceu o Casal de jovens Can Gaza, onde a GATS ganhou o concurso para a sua gestão.

O espaço fica num edifício municipal onde também existe um Casal de Gent Grand (na parte de baixo) e um espaço para as crianças mais pequenas (na parte de cima). No meio, no 1º piso, o casal de jovens, com uma sala ampla, mas preenchida (talvez demasiado) com uma mesa de ping-pong, um sofá, uma televisão, uma varanda, um pequeno escritório com computador onde a Mar costuma estar e uma pequena sala com mesas e cadeiras, estilo sala de estudo. Não é um espaço acolhedor, apesar dos desenhos e outras coisas saídas de oficinas e, de os cartazes a anunciarem actividades e pedir colaboração, que estão pendurados nas paredes, tentarem contrariar esse “vazio”.

No panfleto de divulgação trimestral das oficinas, actividades e serviços do “casal” podemos ler que este é um espaço de encontro e dinamização juvenil, que é um espaço dos/das jovens e para os/as jovens, que pretende oferecer alternativas ao tempo livre dos jovens, e que é um equipamento onde os jovens podem participar nas actividades existentes ou propor outras. No entanto, segundo a Mar, e nós também o podemos comprovar, os jovens vão ali para consumir, levam jogos de Playstation e estão ali a jogar horas sem fim e as meninas vão fazer os trabalhos de casa em conjunto. Por isso é difícil que participem nas actividades propostas e mais ainda proporem eles próprios actividades. Na que houve mais inscritos foi na visita ao Parque de Atracções do Tibidabo (montanha em Barcelona). Perguntamos o que fazia para contrariar essa passividade, e achei boa ideia o facto de no Instituto (equivalente às nossas escolas básicas e preparatórias) haver um criança em cada turma que é o “informador”, uma daquelas poucas que se interessa e quer participar nas coisas, que divulga a informação do Casal na escola, informando os colegas das próximas visitas e cursos. Estes últimos nem são caros, dado que são crianças que não têm na sua maioria problemas económicos. Um curso de iniciação à realização de curtas-metragens poderia ser feito por 25 euros (um mês) e um de babysitting 15 € uma semana. Mas também há as oficinas gratuitas só de um dia (como o de fazer papel), normalmente às sextas, e que têm alguma participação. Talvez por serem apenas de um dia.

O grande problema é que a maioria destas oficinas não terem acontecido porque não houve inscrições suficientes que compensassem a vinda do formador.

Existem outros serviços que o Casal oferece como ludoteca, música, apoio à criação de associações e à organização de actividades, cessão de espaço para reuniões e actividades, sala de estudo, “cantinho da banda desenhada”, “oficinas à medida” (mais uma tentativa de tentar a participação nas oficinas, onde com este “serviço” podem propor outros horários para as oficinas), e espaço de entidade juvenis. Este último serviço faz com que os “Diables del Vi d’Alella”, grupo típico que anima as festas da vila, tenham lá sede (uma pequena sala) onde reúnem semanalmente e guardam o material.

Conhecemos algumas das crianças, que falam basicamente catalão, o que dificultou a nossa comunicação. São jovens sem problemas de maior, segundo a Mar, vindos de famílias estáveis e estruturadas. Vão àquele espaço quando vem lhes apetece (está aberto a partir das 17h) e usam-no como querem. Pareceu-nos demasiado “laissez-faire”, e ainda mais quando soubemos que a função da Mar nem sequer é de facto de educadora social, dado que apenas deve estar no escritório a organizar as actividades para os jovens consumirem. No entanto, ela interage bastante com os jovens e esforça-se para que eles se interessem e proponham actividades

Como as raparigas gostam bastante de trabalhos manuais, mostrei-lhes um origami, elas gostaram e propusemos uma oficina de origamis, assim como mostramos as carteiras tetra-pack.

A viagem de volta para casa foi a pensar em tudo isso, no facto de os jovens não quererem participar. A Mar faz um bom trabalho pois tenta detectar o que eles gostam, o que lhes interessa, de forma a propor oficinas mais indicadas, mas deveria insistir noutro tipo de utilizações do espaço em vez do simples jogar Playstation. Até se pode transformar esse “defeito” numa mais valia, organizando por exemplo um campeonato de Playstation (acho que até já o fizeram) mas sendo os próprios jovens a organizarem praticamente tudo sozinhos e a sério, apenas com orientação. Ou seja, fariam eles os panfletos, a programação (que deveria ser mais abrangente, com outras actividades para quem não gosta de Playstation, por ex), a divulgação, tratariam de tudo no dia (comes e bebes, bla bla bla).. Se durante esta organização, as dicas dadas fossem pertinentes e se eles de facto compreendessem a importância de pequenas coisas como actividades paralelas, o evento seria bem sucedido. Teriam protagonismo juvenil, e mais importante que o resultado final, seria todo o processo passado: as reuniões, as discussões, as tarefas, os prazos a cumprir. Acredito que seja difícil motivar os jovens hoje em dia, numa sociedade tão materialista e consumista, em que estamos habituados a ter tudo já feito e à mão de semear, mas se apresentarmos os estímulos certos, se eles compreenderem de facto, torna-se mais fácil. É uma questão de clickes. Assim, não adianta estar a insistir com oficinas, cursos e acitividadezinhas, se só vão servir para continuar o ciclo do consumo inconsciente. No entanto, podem ser usadas como pretexto para, para conversas que dão o tal clike, para detectar problemas, etc. Não sei se é isso que a Mar faz, embora me tivesse parecido, sei é que é isso que gostava de fazer e penso que não é possível num espaço tão curto de tempo e com este problema de comunicação que avizinho.

Mudando de assunto, tento sempre apontar todas as actividades que existem diariamente em Barcelona na minha agenda (normalmente apenas as gratuitas), e começo a aperceber-me que são mesmo muitas. É que cada vez temos acesso à mais informação, a mais locais onde vemos divulgados eventos, a mais agendas culturais gratuitas, a mais um site na Internet. Os dois meios de divulgação que prefiro são uma agenda cultural gratuita, a “Batxuca” e o calendário alternativo internacional Radical Calendar (www.radicalcalendar.org) do qual selecciono o grupo Indymedia Barcelona.

Só para terem uma ideia, as coisas que aconteceram hoje em diferentes locais foram (fora as que não tive conhecimento:

- jornadas ciberfeministas (poesia, exposição, concertos, debates)

- sessão informativa sobre 3 jovens anarquistas que estão presos, segundo algumas pessoas, injustamente

- manifestação “Salvem Eivissa! – “Não queremos auto-estrada”

- 2 documentários sobre a mulher na Venezuela, na Casa da Solidariedade

- espectáculo da companha de teatro social Rebel’art

- video e conversa sobre Israel e territórios ocupados palestinos, onde um grupo de mulheres catalãs (uma pedagoga, uma jornalista, uma historiadora, uma advogada e uma investigadora) esteve em Dezembro de 05 e Janeiro de 06, com o objectivo de visitar organizações de mulheres. Evento organizado pela associação « Service Civil Internacional » e com a participação das protagonistas.

- Jam sessions gratuitas em diferentes bares

- Conferências diversas em variados centros cívicos

No final não fui a nenhuma destas actividades. É que só cheguei a Barcelona ás 19h30m e como o J. (o tal amigo catalão, do HC) tinha-me telefonado a perguntar se queria ir ver uma curta-metragem de animação japonesa (sem diálogo) resolvei aceitar. É que recusar convites dos poucos amigos que tenho cá não gosto lá muito de o fazer.

Fomos petiscar umas tapas e provei pela primeira vez o tão badalado pão com tomate. Ao contrário do que esperava, não é nenhuma geleia de tomate mas simplesmente tomate esmagado com azeite e barrado no pão. Simplicidade deliciosa! E ao que parece, é mesmo típico aqui da Catalunha. Não se vê noutra região de Espanha.

A noite seguiu-se com uma conversa sobre política e políticos catalãs que se tornou acesa aquando da entrada para a discussão de um amigo do J. cujas preferências políticas eram diferentes.

Fiquei a saber que na região catalã há como que 4 “direcções políticas”: esquerda nacionalista catalã, e direita nacionalista catalã, ou seja, que querem a independência da Catalunha; e direita e esquerda que não querem a independência. Quem governa agora é uma triligação entre 3 partidos de esquerda independentistas, entre os quais um de extrema esquerda, e os “verdes”. O presidente da região autónoma é o Pasqual Maragall, segundo eles figura mediática e bastante carismática.

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


Sexta-feira, Abril 07, 2006

9 de Março - quinta-feira

De manhã acordei cedo e fui à biblioteca. Mais uma vez enviei e-mails a pedir informações de associações e colectivos aqui de Barcelona e actualizei o blog. Ao mesmo tempo que me “inteirei” sobre a actualidade Portuguesa.
À tarde contava ir visitar uma cooperativa ecológica, a Germinal, que um amigo português me tinha falado (http://www.coopgerminal.org/). Mas acabei por não ir porque já ia tarde para o encontro com a Jasmina, a tal rapariga catalã. No entanto, ela ligou-me a dizer que não podia. Mas já estava no centro e então aproveitei para passear um pouco. Um bocado triste, confesso, porque estavam quase a tocar um grupo catalão que gosto bastante – Amparanoia – e não me apeteceu ir ver porque não me apetecia fazê-lo sozinha.
Fui ter com a Ana e Helena e fomos ver uma peça de teatro de marionetas para adultos no Centro Cívico de Drassanes. Com tanta oferta cultural, a sala (embora pequena) estava cheia e de um público jovem (talvez por ser um evento gratuito) e a uma hora relativamente considerada cedo – 21h. Gostei bastante do teatro, era assim como que improvisado e o protagonista era um senhor idoso!
O Centro Cívico de Drassanes fica no famoso bairro do Raval e além dos serviços típicos dos centros cívicos como cedência de espaços para ensaios de teatro, cursos, conferências; oferta de um leque variado de oficinas e cursos; um espaço infantil e um juvenil; este centro cívico tem também um Ponto Informativo de Teatro Amador e um Banco do Tempo. Aloja também um grupo de teatro jovem, o “La Palmera”.

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


8 de Março - quarta-feira


Dia 8 de Março, internacionalmente, dia da Mulher! Dia que tem a sua origem no mesmo dia e mês mas no ano de 1908, quando as mulheres trabalhadoras de uma fábrica de Nova York resolvem fazer greve para reivindicar melhoras laborais e 271 morrem devido a um incêndio.
É então um dia de celebração e de homenagem, não só das mulheres trabalhadoras de 1908 mas de todas as que lutaram e lutam contra a desigualdade e a injustiça. Ao mesmo tempo que um dia de reivindicação (como foi proclamado em 1910 na Conferência Internacional das Mulheres Socialistas) de direitos que ainda faltam obter.
Entre outras coisas, em Barcelona, homens e mulheres, juntos na manifestação, exigem um “trabalho assalariado de qualidade e em igualdade de condições”, o “reconhecimento social do trabalho doméstico”, uma “sociedade livre de violência contra as mulheres”, “que os homens sejam co-responsáveis nesta luta”, “uma igualdade real (social), e não legal, que garanta que as mulheres sejam cidadãs de pleno direito, “viver numa democracia plena, baseada em dois grandes princípios: a liberdade e a igualdade das pessoas” e por último exigem um “Mundo no qual homens e mulheres possam viver sem violência” (traduzido do panfleto “Home, La Feina Pendent”). Mais razões podem ser lidas no manifesto do Grupo de Mulheres que se encontra em anexo.

Eu e a Marlene, claro, fomos à manifestação, como observadoras mas acabamos também por sermos participantes.
Estavam muitas mulheres, mas também muitos homens. A diversidade de grupos e colectivos presentes era grande (identifiquei a Amnistia Internacional, um grupo de “Mulheres Verdes”, vários partidos, imensos colectivos e associações feministas... li depois que foram cerca de 50 que aderiram à convocatória – ver anexo) embora mais criatividade fosse necessário. Só um grupo trazia alguns balões brancos pendurados em cartazes e que chamavam a atenção. O resto era o normal: faixas, bandeiras, cartazes, t-shirts....
Alguns exemplos: “Contra a precariedade laboral, planos de igualdade”, “Ni divisic del trabalho, ni doble jorna, ni precariedade laboral, rebelát!”, “Trabalhadoras familiares em luta por uma lei mais justa”,
Havia também os slogans mais reivindicativos, digamos, como “Aborto livre e gratuito”, “Mango, Berska...deixem de controlar as nossas vidas” (afixado num poste de electricidade), “Estamos a construir a nossa liberdade”. E uns mais originais como “Antes morta que submissa” e “Os meus direitos não se negociam”. E os que nos transportavam para realidades de outros países: “Basta de feminicidio. Guatemala: 1,5 mulheres assassinadas por dia.”, “Agora em Chile mandam as mulheres.”
“Homens e mulheres por um mundo mais justo” dizia um cartaz que segurava um rapaz. Também um grupo de homens segurava numa faixa onde se lia: “Pela liberdade das mulheres” . Na altura da concentração, uma situação para mim curiosa, foi a de um senhor velhinho que me veio pedir ajuda porque não conseguia descolar o autocolante da manifestação (que dizia “Dia Internacional da Mulher”) do papel para colar no seu casaco. Lá o ajudei e foi bom vê-lo escapulir-se para o meio dos manifestantes, pronto para participar.
Havia também cartazes noutras línguas, principalmente no grupo dos imigrantes, que proclamavam, entre outras coisas: “A lei do estrangeiro é violência de género”, “Papeis para todas”.... Por causa deste último slogan assisti a uma cena engraçada: um homem do grupo dizia “todos” em vez “todas” e elas olhavam para ele com um ar recriminatório e ralhavam-lhe zangadas. Acabou tudo a rir-se, e eu lembrei-me de como ás vezes as discussões por causa da linguagem, das palavras, não valem muito a pena. O homem estava lá, com elas, a manifestar-se. Que importa que diga todos ou todas? É que das duas uma: ou é por esquecimento de usar o politicamente correcto “todos e todas” (e agora qual é que vem primeiro) ou por brincadeira.

Durante o percurso de cerca de 2 horas, no qual várias pessoas se foram juntando, umas raparigas de um grupo feminista anarquista (acho eu) colavam cartazes nas lojas de roupa, onde se podia ler, entre outros: “já não encaixo nos cânones de beleza. Rebel-la’t!” e “as mulheres que querem ter filhos têm mais dificuldade em conseguir emprego”. Esta acção espontânea chamou bastante a atenção das pessoas que àquela hora passavam atarefadas pelo local ou entravam e saíam das lojas; arranjavam um tempinho para parar e ler as mensagens, tiravam fotos com o telemóvel, comentavam com os amigos. Também chamou a atenção dos segurança das lojas, claro, e quase que as raparigas tinham problemas.

Claro que depois este assunto foi pano para mangas para reflexões e discussões com a Marlene sobre manifestações e suas formas de acção. Minha conclusão: embora eu me identifique com formas de acção e manifestação pacificas e não violentas, compreendo quem age de forma menos pacífica, embora quando envolve pessoas inocentes condene completamente.
Outra conclusão: é preciso ter em conta que as manifestações são um conjunto de manifestações individuais; ou seja, não se pode pôr tudo no mesmo saco (e os média têm muita culpa nisto), não é porque vemos na televisão uns manifestantes a atirar um cocktail molotov para os policias, que todos os participantes da manifestação são “uns vândalos violentos”. Há que desmistificar esta situação, e isso não passa por ficar em casa e não participar, mas sim participar de forma criativa e pacifica.

Voltando ao assunto do Dia das Mulheres, mais tarde fiquei a saber que o “Movimento de recolzament a Migjorn” convocou uma concentração de manhã em frente à câmara para reivindicar o reconhecimento do direito de todas as mulheres de poderem escolher onde e como querem “dar à luz”, se em casa, se no hospital.

Não sei o que fizeram em Portugal, se houve manifestações ou não, se um 100 número de debates, conferências, ciclos de cinema de e sobre a Mulher também tiveram lugar.
Mas porque há sempre motivo para criticar, dizer mal, lutar, propor alternativas, o que quiserem ou tudo isto e mais alguma coisa, eis alguns dados que o justificam, referentes ao ano de 2005 em Portugal:
- “registaram-se 17811 queixas por violência doméstica;
- anualmente morrem em média 2 mulheres e 5 mil são hospitalizadas por motivos relacionados com o aborto clandestino;
- dos 13 membros do Tribunal Constitucional, 4 são mulheres;
- dos 20 membros do Concelho de Estado, 1 é mulher;
- dos 17 membros do Concelho Superior de Magistratura, 2 são mulheres;
- as mulheres ganham em média 76,7 % do que os homens recebem;
- embora as mulheres constituam 62,8% da população com menos de 35 anos com Ensino Superior, a taxa de desemprego feminina é superior à masculina (11,6% face a 6,2%).”
Li estes dados editados num panfleto da Não te Prives (www.naoteprives.org), intitulado “Porque celebramos o 8 de Março?”. Espero que o tenhamos celebrado tod@s: mulheres ou homens, trabalhadoras/es ou não trabalhadoras/es.

Hoje antes de irmos para casa ainda fomos visitar a RAI (Recursos de Animação Intercultural – www.pangea.org/rai) porque havia uma sessão de poesia e música gratuita. Parecia um bar cultural, com muita informação afixada, panfletos... Ficamos só para a música.
Seguimos para casa, que estava vazia. É incrível como às vezes Barcelona com tanta gente é ao mesmo tempo tão sozinha. Preciso de amigos aqui e agora!

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments




Terça-feira, Abril 04, 2006

7 de Março



Hoje fomos pela 1ª vez à GATS (http://www.gatsbaix.org/), a nossa associação de estágio! Não porque o quiséssemos, mas porque só agora tinham disponibilidade para nos receber.

Eu pensava que íamos ter com a GATS ao Centro Cívico porque eles faziam a gestão desse centro, mas não é a GATS, é uma empresa; a GATS apenas tem lá sede: um pequeno escritório com dois computadores e uns armários. Parece-me uma associação pequena. O ambiente pareceu-me bom: jovem, dinâmico e informal. Estivemos com 3 das pessoas que trabalham na GATS a conversar no café do centro cívico e depois no escritório.

GATS, associação sem fins lucrativos, nasceu em final de Setembro de 2000 e significa “Grups Associats pel Treball Sociocultural”. Ficamos a saber que não são vários grupos distintos que se juntam numa espécie de colectivo mas que apenas têm esse nome para demonstrar que são uma associação aberta a colaborações. Costumam trabalhar com vários grupos diferentes, pessoas ou colectivos, aproveitando capacidades já existentes e dividindo esforços; sendo assim talvez faça mais sentido falar em grupos do que grupo. É que o plural reflecte melhor essa cooperação do que o singular. Esta explicação suou muito bem, claro.

Pelo que percebi, o mote principal da GATS é “reflexão, acção”! Assim, não só organizam seminários e conferências como criaram vários projectos de intervenção. Neste momento, a GATS gere a “Casal de Jovens de Allella” (espécie de espaço para jovens) e o “Lokalillo” (também um espaço para jovens) em Canovelles, ambas localidades situadas fora da cidade de Barcelona. A GATS faz também reforço educativo com famílias com necessidades num distrito, e é entidade supervisora de um centro cívico. Têm também um projecto de alfabitização digital (CAS).

No final, foi decidido que vamos ter duas tarefas na GATS. Uma delas, orientada pelo Eduardo (que embora esteja muito recentemente a trabalhar na GATS, é o nosso tutor), procurar subsídios da União Europeia com os quais eles possam financiar um projecto de mediação comunitária. A outra tarefa é dinamizar um pouquinho os tais projectos que têm nas casas de jovens, conhecer e propor algumas actividades.

Agora só nos resta esperar que as pessoas que gerem esses espaços nos contactem para a primeira visita ser efectuada.

Depois do almoço estive a mostrar no computador algumas fotos e projectos do GAIA à Marlene. É incrível como aprendi tanto com o GAIA, mais, diria mesmo, que no curso de animação, onde a vertente mais prática, mais de contacto com o “real” é muitas vezes esquecida! Nunca ninguém nos mostrou candidaturas a projectos, explicaram como funciona o programa Juventude, incentivaram para a participação em associações (lembro-me que, por exemplo, na Finlândia, práticas de voluntariado e de participação que cada aluno realizasse em associações, colectivos ou projectos, eram contabilizadas no plano de estudos, ou seja, “davam” alguns créditos).

De seguida fui de novo à associação Ecologistas em Acção mas a pessoa responsável continuava doente. Estive mais uma vez a ver revistas e descobri que há um projecto recente chamado “Rede de intercâmbio de conhecimentos” que me parece muito parecido com o Sistema Trocal e Banco do Tempo e já que não consigo contactar com estes movimentos aqui, vou tentar este (embora no artigo não indicassem nenhuma forma de contacto). No artigo li uma frase que destaco e que explica tudo: “todo el mundo sabe algo que puede ensenar al outro y todo el mundo ignora algo que puede aprender de l outro”. É baseado neste pressuposto, digamos, que se cria um sistema, uma rede, que não é uma simples rede de voluntariado, mas sim de trocas; é uma rede onde se aplica o ensino horizontal, não vertical (onde todos valem o mesmo); onde não existe dinheiro pelo meio e onde todos os conhecimentos são importantes (não só os técnicos ou universitários). O objectivo principal não é só o intercâmbio de conhecimentos, mas sim construir tecido social, que as pessoas se impliquem mais e participem. E está a ser bem conseguido, dado que esta rede em Nou Barris (penso eu) conta já com 170 pessoas e 35 intercâmbios semanais.

Tenho mesmo que conseguir contactar este grupo dado que pode ser uma mais valia para o Sistema Trocal do Porto que está a ser difícil dinamizar. O sucesso deste grupo barcelonês decerto que deve muito ao carácter participativo dos barcelonenses, mas a forma como fazem a sua divulgação e como dinamizam o grupo deve ter algum peso.

Tal como no dia anterior, resolvi ir para o centro da cidade, mas desta vez porque tinha combinado com a Jasmina. Que é uma rapariga que conhecemos no primeiro dia em Barcelona em que procurávamos quartos para alugar e com a qual logo simpatizei. Como quero mesmo fazer amigos catalãos, enchi-me de “lata” e envie-lhe uma mensagem a dizer isso mesmo e se não queria tomar um chã ou qualquer coisa. Só que ela tinha-me tentado contactar a dizer que não podia ir mas eu não ouvi a mensagem a tempo.

Aproveitei e fui a uma exposição bastante interessante bem ao lado da câmara de Barcelona, sobre urbanismo e planos urbanísticos de Barcelona, com um grande enfoque na participação cívica. Resta saber se é “fachada” ou é verdadeiro!

Ao voltar para casa o metro estava mesmo a abarrotar! É que hoje é dia de futebol e então a cidade está louca. O futebol aliena as pessoas, dá-lhes algo momentâneo, algo vibrante, com força, algo que alimenta por momentos, que leva para longe o stress do dia a dia, que junta as pessoas, que dá “felicidade”. E tem a capacidade fantástica de criar algo dentro das pessoas, uma admiração, uma ocupação, algo em que acreditar e que defender: o clube ao qual se pertence. No fundo, acho que é um pretexto para as pessoas se juntarem e divertirem, podia ser outra coisa qualquer, outro desporto, mas calhou ser o futebol (que claro, tem o apoio de vários governos, dado que mantém as pessoas ocupadas e movimenta muito dinheiro). Ás vezes penso que se este “futebol” fosse substituído por outras causas mais importantes, o mundo seria muito melhor mais rapidamente.


">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


6 de Março - segunda-feira


Hoje fui ao Centro Cívico Can Basté (o tal em Nou Barris) para falar com a Associação Ecologistas em Acção (www.ecologistasenaccion.org) que têm lá sede, mas, infelizmente, a pessoa que estava responsável nesse dia adoeceu. Aproveitei para, numa espécie de hall de entrada (onde estava a secretaria, mesas e cadeiras, exposição sobre o dia das mulheres), ler umas revistas que lá estavam disponíveis. Revistas feitas por associações de vizinhos, associações locais, associações de jovens! É incrível a quantidade de associações que existem em Barcelona. Sei que em Portugal o número de associações também é elevado, mas é que muitas acho que não está lá muito activas. Só existem praticamente no papel. Aqui muitas fazem realmente coisas, já que nas revistas podem-se ver divulgadas várias actividades. E existem associações de todos os tipos e para todos os gostos. Há também aquelas bastante curiosas, como uma associação de pessoas com apelidos de animais.

Continuando a contar o meu dia-a-dia., desapontada, resolvi ir dar um passeio pela cidade e nunca me senti tão desorientada. Passado uns minutos, lá encontrei uma associação que procurava: “Xarxa Consum Solidário” (Rede de Consumo Solidário – www.xarxaconsum.org). Depois de comprar uns livros que estavam em promoção e eram sobre o Fórum Social de Porto Alegre e os movimentos sociais, perguntei mais coisas sobre a associação. É que podiam ser uma associação que se dedicasse só ao Comércio Justo e divulgação dos seus produtos ou então poderia ter outras áreas de actividade. E de facto, o Turismo ético e solidário, a cooperação internacional com as associações dos países do Sul (com quem trabalham, actualmente com associações de Marrocos e Equador), as campanhas de sensibilização e uma cooperativa de produtos ecológicos e biológicos são outros projectos da organização não governamental que estão em marcha, como me explicou uma das raparigas simpáticas que estava no escritório/sede da associação. Em relação ao Comércio Justo; apenas têm uma loja comércio justo com produtos biológicos, artesanato, livros, entre outros, mas têm muitos dos produtos espalhados por 180 pontos de venda diferentes.

Perguntei como podia ajudar mais activamente, tendo em conta que não falo catalão nem sequer um castelhano perfeito. Falamos da possibilidade de serem precisos voluntários para o armazém, para distribuir os legumes no âmbito” da cooperativa de produtos biológicos, para dinamizar bancas de divulgação e venda em eventos específicos... Perguntaram qual a mina disponibilidade e fiquei de lhe enviar um e-mail enquanto ela iria falar com os outros companheiros da associação para ver onde eu poderia participar. Mais uma vez não foram muito receptivos, simpáticos sim, mas receptivos não. Fico com a ideia que aqui as associações já têm gente suficiente e não andam como em Portugal ansiosos por novos voluntários.

De seguida, como sabia que ficava perto, fui procurar a RAI (Recursos de Animação Intercultural), mas desorientada como estava, não encontrei!


Sem querer, fui parar ao Centro Cívico Sant Agusti (dos primeiros que visitamos) e vi uma exposição sobre escolas públicas: “Um século de escola em Barcelona – acção municipal e popular – 1900-2006”.

Com a exposição universal de 1888 em Barcelona, esta começou a crescer e a tornar-se numa cidade “moderna”. No entanto, “o crescimento da cidade supõe, ao mesmo tempo, o aumento das diferenças sociais.” Foi bastante agradável ler esta frase dado que nos diz exactamente que o que tem acontecido é um crescimento insustentável e que talvez as cidades já tenham crescido demais. Retomando, com o crescimento de Barcelona houve também uma forte agitação política e social protagonizada por grupos regionalistas, republicanos e anarquistas. A nível educacional, o facto é que metade da população era analfabeta. A escolarização das crianças situava-se em contextos muito diferentes: escolas elitistas, escolas populares e na rua, e mesmo crianças que não iam escola, ao invés, trabalhavam.

Surge a Ley Moyano (1857) que diz que a educação é obrigatória dos 6 aos 9 anos. Uma das coisas que achei engraçado foi que essa lei implica que não se possam construir praças de touros nas aldeias e vilas onde não haja escola, havendo por outro lado recompensas para as câmaras e entidades que construam escolas. As primeiras escolas da política educacional e pedagógica da Câmara de Barcelona são concebidas como laboratórios experimentais, pretendem introduzir a gratuitidade, a coeducação, a neutralidade religiosa e a certificação do mestre. São escolas municipais ao ar livre e seguem os princípios do movimento higienista e da Escola Nova. Além da Natureza ser o meio natural da criança, era particularmente importante na época, pois melhorava o físico das crianças, das quais algumas estavam bastante afectadas pela tuberculose.

Outros dos princípios da Escola Nova são:

-ensino baseado nas experiências e actividades das crianças;

ensino que parte dos interesses espontâneos das crianças;
-
motivação para a reflexão, ao contrário da acumulação de conhecimentos memorizados;

-ambiente de beleza, educação do corpo, música colectiva;
-
trabalho individual e em equipa;

-organização de viagens, excursões e acampamentos;

Com a 2ª república o desejo de ensinar e aprender aumentou e o Estado assume pela primeira vez a responsabilidade plena da Educação. Prioriza-se assim a Escola Pública e 27 000 escolas são criadas. Em 1931 já se tinham construído 7000 delas e o magistério passa a ter reconhecimento oficial. Os Grupos Escolares aplicam de forma fiel e rigorosa os princípios da Constituição Republicana, do Estatuto de Autonomia e da Escola Nova: o Ensino é totalmente gratuito; as aulas dividem-se em catalão e em castelhano; os exames são substituídos por avaliação continua e o livro de texto por consulta na biblioteca e atribui-se grande importância à participação democrática e educação cívica.

Em 1939 surge a Ditadura Franquista e ensina-se e aprende-se debaixo do silêncio até 1975. O nacionalismo converte-se na doutrina oficial do regime e a prática religiosa é obrigatória. Tal como o “Deus, Pátria a Família” e Salazar. As aulas são separadas por sexo (a coeducação é proibida); a língua de ensino passa a ser somente o castelhano; a pedagogia é autoritária, do silêncio, das ordens e da disciplina severa; volta-se aos métodos tradicionais de memorização e repetição e o aluno não tem qualquer protagonismo.

No fim da ditadura, embora eu considere que na exposição faltou explicar melhor este ponto, surge um grande movimento de reivindicação das escolas públicas e gratuitas de outra hora. As 1ªs jornadas pelas escolas públicas são organizadas em 1985 pela Mesa de Nou Barris em defesa do Ensino Público; o que me faz pensar que Nou Barris deve ser uma freguesia com uma história passada a nível de activismo que justifica, talvez, o seu fulgor reivindicativo de hoje em dia. Em 1988 vão “Todos ao Parque da Cidadela” pela “defesa do ensino público e sua qualidade”, como se pode ler nos antigos cartazes de divulgação.

Como estamos perto do final da exposição, há uma espécie de mostra de livros indicados (presumo eu): “Pedagogia do oprimido” de Paulo Freire, “Por uma escola do povo” de Célestin Freinet e “A sociedade descolarizada” de Ivan Illich, são alguns dos exemplos.

Mesmo ao lado, um mural a imitar uma típica parede com grafitis e dizeres: “Nem uma criança sem escola, nem um professor sem trabalho”, “Voltem os nossos professores”, “Escolas activas para bairros obreiros”, “Escolas em luta”, entre outros.

Por último, as escolas de Hoje são apresentadas e foi a parte que menos gostei. Tinha pouca informação. Só umas imagens e um texto a dizer praticamente quantos anos tinha a escola, o que leccionava, etc. Algumas referiam as “típicas” actividades extracurriculares. De notar que muitas delas apresentavam actividades interculturais, devido ao número elevado de imigrantes que tem a cidade, e como forma de promover a integração destes através da valorização da sua cultura e o seu intercâmbio.

À noite quando cheguei a casa, vimos um filme (eu, Marlene e C., o italiano que vive connosco), daqueles que fazia parte da minha lista de filmes a ver, que consegui requisitar na biblioteca (é que os dvd’s parecem ser artigos bastante requeridos na Biblioteca): “Celebração”. Muito bom. Enquanto todos celebravam os 60 anos de um pai de uma família respeitada, o filho não dava motivos para celebrar. Pelo contrário. Denunciou com coragem as práticas pedófilas do pai com ele mesmo e sua irmã em crianças.



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


Segunda-feira, Abril 03, 2006

5 de Março – domingo

Ás 10h estava a sair de casa. Queria aproveitar algumas entradas gratuitas em alguns Museus por ser o primeiro Domingo do mês. Fui em direcção ao Museu Picasso onde a fila para entrar era enorme! Tudo apenas para ver uma exposição sobre Picasso. Uma exposição cronológica onde fiquei admirada com os seus primeiros anos que curiosamente foi dos que mais gostei pela novidade de umas telas muito pequenas, tamanho A5! A fase modernista também me agrada, onde penso que se insere a sua obra “Guernica” que infelizmente não está neste museu e é das minhas favoritas.

Um toquezinho à campainha da casa da Ana e da Helena (que é mesmo perto) e vamos todas ao Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona ver uma exposição sobre Circo – “Circo Contemporâneo Catalã, a arte do risco”.

A exposição explicava a história de um novo estilo de circo na Catalunha, o chamado Novo Circo. Nasce no final da Ditadura Franquista, com a Revolta Social e o carácter de festa e risco cénico desta. A vida e a festa começa a fazer-se nas ruas, a liberdade que estava reprimida é posta em prática, recuperando-se assim tradições e o folclore catalã.“ Os comediantes escolheram a reivindicação do saltimbanco. São músicos, acrobatas, , palhaços, malabaristas!” (Xavier Fábragas).

Depois, através dos festivais, associações profissionais, entidades cívicas, revistas, centros de formação, o circo cresceu e misturou tradição e inovação. Em 1981, o “Circ Cric” era um marco de referência desse Novo Circo (e ainda existe, estando agora em actuação em Montjïc; gostava de assistir). “Pode parecer que o circo se situa à margem da cultura, mas na realidade está no centro” (Paul Bouissac).

O Novo Circo não usa animais nos seus espectáculos, apenas pessoas, potencializando as suas capacidades. Assim, figuras como os mimos, os ilusionistas, o teatro visual e gestual, também aparecem e fazem parte deste Novo Circo. São exploradas novas dimensões poéticas mas onde as palavras faladas geralmente têm um papel secundário.

Em Barcelona, actores, músicos e coreógrafos começam a incorporar elementos circenses nos seus espectáculos. O Circo contemporâneo tem então características de híbridação, diversidade, com múltiplas influencias e linguagens. Influencia e é influenciado.

Concluindo, “o Circo é um poema a compartir”, (como disse Bernard Kidlak), e que está a ser compartido. Pelo menos foi com essa impressão que saí da exposição.

No mesmo local, vimos uma exposição denominada “Mulheres diante da guerra” organizada pela Cruz Vermelha. São testemunhos e fotografias de situações que envolvam e retractem mulheres durante as actividades de protecção e assistência médica da Cruz Vermelha.

A exposição retractava os diferentes papeis da mulher nos conflitos armados: o papel de combatente; de presa; de parte da população civil que é vitima; vítima de abuso sexual; refugiada; sem casa e bens; o papel da mulher que busca desesperadamente os seus familiares e até o papel da jovem mulher que forçosamente tem de adoptar o papel de adulta.

“Eu não se exactamente, mas toda a gente diz que tenho 10 anos, um dos meus irmãos tem 5 e o outro 7. Quando os meus irmãos têm fome pedem-me de comer. Não me lembro quando é que morreu a nossa mãe.” [1]– Mah Bibi, Afeganistão.

Como podemos ver, a exposição apresentava-nos uma realidade crua e dura que muitas vezes tentamos esquecer e “empurrar” para longe. Uma realidade que nos choca no momento mas que não fica muito tempo.


Ás 12h estava já na agenda e esperada por mim com alguma ansiedade a 19ª Calçotada popular de Sants (organizada pelo Casal Independentista de Sants), com jornada informativa sobre el TAV (comboio de alta velocidade que vai ligar Madrid a Barcelona e sobre o qual há um grande movimento cívico contra), com gigantones, música ao vivo, e claro, os tais calçots e outras comidas típicas catalãs. No entanto, estava tanta chuva que não assistimos a quase nada!!!! E esta organização não previa um plano B! Mesmo assim, os “pauliteiros” (pareciam mesmo os nossos pauliteiros de Miranda) continuavam a tocar e dançar debaixo da chuva torrencial! Vimos tudo de longe, tentando estar abrigadas, mas ao mesmo tempo não vimos nada! Depois a Marlene é que nos contou como eram os calçots afinal, já que ela foi mais cedo e ainda não chovia. Contou-nos que os calçots parecem o nosso cebolinho e assam-nos tal como vêm da terra. Só que têm de estar de máscaras e tudo porque a fumarada é muita! Aproveitam a brasa para assar salsichas e depois servem também o famoso pão com tomate catalão (ou será espanhol? Tenho que confirmar!). Molham os cebolinhos num molho especial para o efeito e comem-nos com as mãos, embora haja uma técnica para o fazerem sem se sujarem.

Pesquisei na Internet e li que os “calçots” são um tipo de cebola (branca, tenra e doce) que só se cultivam desde o final do inverno até ao principio da primavera, em certas aldeias do interior do distrito de Tarragona. Portanto é um prato típico e originário nesta região ocidental da Catalunha, tendo exactamente a sua origem em Valls, en Alt Camp.

Receita da salvitxada (molho para as calçots)

Ingredientes (para 4 pessoas)

1 cabeça de alho escalvado e um alho cru

100 g. amêndoas torradas e peladas

30 g. de avelãs torradas e peladas

4 ou 5 tomates maduros escalvados

aproximadamente 80 cl. de azeite

1 pouco de pão seco torrado e ensopado de vinagre

1 polpa de nyora (uma espécie de pimento seco) ou 2 colheradas de pimentão vermelho

sal

Preparação (por ordem):

Numa tigela (ou batedora) põe sal a gosto, De seguida pica os alhos. Acrescenta e pica as amêndoas e avelãs. Pica os tomates. Acrescenta o azeite a pouco e pouco sem deixar de picar (bater), até que vejas que o molho já está bom (dependendo da quantidade de azeite podes fazer o molho mais espesso ou mais leve). Por fim acrescenta o pão, a polpa da nyora ou o pimentão..

(A textura do molho tem de estar bem homogénea).



[1] Traduzido de castelhano para português. Retirado do cenário da exposição.



">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


4 de Março – sábado

Hoje foi um dia calmo. Isto porque primeiro acordei tarde e depois porque foi daqueles dias em que fui ficando em caso e ia-se fazendo tarde para sair e aproveitar a tarde.

À noite tinha combinado ir "tomar café" com um rapaz catalão que pertence ao Hospitality Club e também ao Couchsurfing (outra rede do género). A Ana e a Helena também foram. Uma noite tranquila num bar tranquilo a conversarmos. E o engraçado é que ele está à espera da confirmação se vai para a Madeira fazer um estágio profissional ou não. Então foi mais uma espécie de intercâmbio linguístico o que passamos a noite a fazer. Ele ensinava-nos castelhano e catalão, e nós português! É sempre mais divertido e motivante aprender uma língua assim do que com gramáticas e dicionários.

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments


3 de Março - sexta-feira


Saí de casa zangada por sair tarde. E com razão, já que cheguei a um mercado de 2ª mão que há quase todos os dias na Praça Las Glories e já estava a fechar. Ia procurar bicicletas em 2ª mão e o que aparecesse. É que adoro lojas de 2ª mão, sótãos e tudo o que tenha objectos de outros tempos. Gosto de imaginar outros ambientes, outras situações e vivências. Além disso, é aquele acto do “descobrir”, do estar a mexer em coisas antigas, como se tivéssemos a remexer no “secreto”, no que não é “raro”.... E é um mundo de associações, de levantar de pó.. Um objectivo faz-nos recordar uma situação, lembra-nos uma pessoa, um momento...!

A seguir, como planeado, por ser perto, fui à Sagrada Família. É que ainda não a tinha visto de dia (pelo menos agora desta vez que cá estou em Barcelona). Tirei algumas fotos! Ou melhor, muitas! É que um edifico grande e com tantos pormenores é difícil evitar clicar mais uma vez na máquina. O edifício inacabado de Gaudi é de facto interessante para se observar. É que não é propriamente belo, digamos que aqueles guindastes todos estão ali a mais, mas como é tão pormenorizado e com detalhes engraçados, torna-se um edifício bastante curioso.

No caminho para o centro da cidade, resolvi entrar na Casa Asiática, e dia consigo-a ver melhor e é realmente uma casa muito bela, com uns vitrais (adoro vitrais) simples e bonitos (assim mais para o geométricos). Através do panfleto que lá li, fiquei a saber que o edifico era o antigo Palácio Baró de Quadras, edifico modernista do arquitecto catalão Josép Puig i Cadafalch, construído no inicio do séc. XX. Já albergou o Museu da Música, mas desde 2003 é a sede da Casa Ásia, tendo como objectivo desenvolver as relações entre Espanha, Ásia e Pacifico em vários âmbitos.
A casa tem várias salas diferentes (antigos salões de jantar, salas bastante bonitas) que podem ser usadas para exposições, debates, cursos, entre outro; um auditório; uma biblioteca e vídeoteca (especializadas no Mundo Oriental, claro), uma sala Internet; um Centro de Negócios no piso superior; um restaurante oriental e o “Infoasia” (ponto de informação sobre Ásia e Pacifico).

Foi na Galeria de Arte da casa que vi uma exposição intitulada “Retratos Asiáticos” de Pierre Gonnard. São 24 retratos fotográficos da série dedicada a modelos fotográficos que se identificam na sua maioria com a marginalidade e exclusão. Porém, em muitas das fotos não consegui interpretar essas situações. Não obstante, eram de facto bonitas fotos (ainda para mais como estavam tão ampliadas tinha mais impacto).

A seguir desci para o Passeio da Grácia, o passeio com as casas de Gaudi e outras do movimento arte nova, mas infelizmente, a máquina fotográfica ficou sem bateria! É que um dos meus objectivos de hoje era tirar algumas fotografias. Entrei no Palácio Robert, que é um Centro de Informação da Catalunha com espaços para exposição e vi a única que estava disponível no momento: uma da delegação de Barcelona da organização mundial Médicos sem Fronteiras (www.msf.es). A exposição focava-se em duas áreas de acção: conflitos armados e epidemias em diferentes países como Somália, Tchetchénia, República Democrática do Congo e Colômbia. O que mais me impressionou (admirou) foi as inúmeras mortes ocorridas devido a uma epidemia chamada “chagas” cujos governos tentam silenciar.

A Bicicletada/Massa Crítica em Barcelona é na primeira sexta do mês, ao contrário de Portugal que acontece na última. Embora não tenha bicicleta, estava na praça da Universidade à hora marcada (20h) para além de tentar saber onde posso comprar uma bicicleta em 2ª mão, conversar com os participantes, saber mais coisas sobre a Massa Critica barcelonense, as diferenças em relação à portuguesa e o que mais surgisse. É que presumi que, tal como em Portugal, houvesse um movimento inicial de ponto de encontro, de reunião, até que, passado uma meia hora, aí sim, partia-se para a Bicicletada.

E estava certa pois os barcelonenses também não são pontuais, e às 20h30 ainda não tinham partido, altura em que resolvi vir embora. Isto porque não me estava a sentir muito bem recebida. Talvez seja problema meu, que também não tenho muito à vontade quando chego assim a um local de repente, onde não conheço ninguém.

Mas lá tentei! Cheguei e vi poucas bicicletas. Aproximei-me de dois rapazes que estavam mais próximos e perguntei num castelhano com pronúncia à portuguesa se iam participar na Massa Crítica. Responderam afirmativamente e então contei-lhes que era de Portugal e que costumava participar na Massa Critica e bla bla bla, fiquei a saber que na última estavam 30 participantes e que como era a 2ª vez que eles participavam não me podiam ajudar muito. Disseram que há um rapaz que costuma estar mais envolvido, que tem os panfletos, mas que ainda não chegou. No meio desta conversa eles começavam a falar catalão entre eles e não me “ligavam” nenhuma. Até que eu fui-me sentar lá num banco, e enquanto esperava por mais “bicicleteiros”, apontei no meu bloco uma série de perguntas em relação ao movimento em Barcelona!

Entretanto, mais bicicletas aproximaram-se do tal par inicial e eu aproximei-me passado um bocado. Sem saber muito bem o que dizer perguntei se alguém tinha um panfleto. Disserem que não e mais nada pronunciaram, pelo menos para mim. Fui sentar-me de novo desanimada. Não passado muito tempo, chega mais um grupo. Dirigi-me a uma das raparigas e fiquei a saber que no Casal de Jovens Roquetes (grupo de jovens em Nous Barris) reparam e oferecem (será?) bicicletas. Quando tentei saber mais sobre o movimento, só me disse que o número de participantes depende muito; mesmo assim tentei saber qual foi o máximo a que ela assistiu mas a rapariga respondia sempre “depende”.

No geral não os achei nada simpáticos. Se é um movimento cívico deveriam querer mais pessoas a participar, então têm de informar, estar receptivos, motivar as pessoas a participar!! Ás tantas no Porto, na Massa Crítica, a imagem que damos não é que somos simpáticos e calorosos, é que deve depender muito das perspectivas. Se calhar, falta, em ambos os casos, alguém com uma função de “receber” quem vem de fora, quem vem pela 1ª vez, quem vem curioso, quem vem com dúvidas.

Segui pelas Ramblas até à Casa da Ana e da Helena para perguntar se queriam ir a uma festa chamada Yomango, de um movimento (?) com o mesmo nome. Na altura quando vi o anúncio na Internet não percebi muito bem do que se tratava e fiquei curiosa.

A festa era numa casa okupada enorme!! Todo o edifico estava ocupado, numa rua mesmo em frente à marina (Passeig Joan Borbon) e bem identificada. A festa era só no rés-do-chão, com uma mesa com comes e bebes, um projector onde estavam a passar um video sobre o colectivo Yomango, uma zona com uma Dj e em todo o espaço, em pé e numas almofadas no chão, várias pessoas de todos os “feitios”. O espaço era pequeno mas acolhedor. E as pessoas simpáticas, já que pelo menos sorriam!

Ao contrário da bicicletada, falei com um jovem que parecia fazer parte da “organização” e foi bastante simpático! Explicou-nos do que se tratava o movimento: YoMango significa literalmente Eu (Yo) Mango (gamo – roubo). Mas roubar apenas em multinacionais, como forma de protesto contra o capitalismo, a sociedade materialista e o consumo desenfreado.

Disse-lhe que eu, embora não gostasse de multinacionais (pelas mesmas razões que ele, creio), não conseguia roubar e consumir os seus produtos, pois fazer-me-ia confusão, prefiro o boicote total à empresa. Ao que ele me respondeu que cada um tem a sua forma de luta, a forma que se identifica mais, que se adapta melhor, que é mais coerente com o seu pensamento e personalidade. Ás vezes há movimentos com os quais simpatizo, como o movimento okupa, embora não me identifique com a sua forma de agir, não seria a ideal para mim. Roubar em multinacionais, divertir-me com tudo isso (como vi num dos seus vídeos em que se divertiam à brava a dançarem tango dentro de uma grande cadeia de supermercados e a roubarem ao mesmo tempo), acho que não é para mim, embora considere legitimo quem o faça e saiba justificar. Isto é, em todos os movimentos sociais há quem faça parte dele só por fazer, por moda, por acréscimo, por diversão....É como em todo o lado e todas as coisas. Mas há quem realmente saiba o que está a fazer, saiba justificar e fundamentar. Tal como os movimentos, que também têm a sua fundamentação teórica. Yomango tem bastantes textos na sua página Internet, que tentam justificar a sua existência, vou lê-los e logo comento mais.

A festa aconteceu para colectarem algum dinheiro para enviarem para o grupo Yomango no México que pagou uma multa de 3000 euros por roubarem numa multinacional; pelo que o preço das bebidas revertia para o grupo e a comida era gratuita (roubada, supostamente).

Acabamos a falar todos sobre Portugal e Espanha, já que o rapaz tinha bastante curiosidade acerca do nosso país. Dizia que na escola, por ex., nunca falaram de Portugal. Então aquela ideia estereotipada que tinha dos Espanhóis “esquecerem-se” muito de Portugal confirma-se mais um bocadinho.

Trocamos contactos, ele deu-me um dvd com vídeos Yomango, autocolantes, cartazes para distribuir e mandar para Portugal.

A seguir, como mais ou menos combinado, fomos sair com o J. e os franceses do Hospitality Club (e mais um amigo catalão do J. que se juntou mais tarde). Fomos primeiro a um bar que estava a abarrotar de gente e é o único que se bebe absinto cá. É que é proibido, assim como muitas outras coisas parecem ser proibidas aqui na Catalunha. Há uma lei que proíbe vários actos de acontecerem nas ruas como urinar, escarrar, barulho (que até aqui parece bem), mas também beber, e imagine-se só, jogar à bola.

No caminho para a discoteca ainda passamos num bar que era uma espécie de homenagem a uma famosa actriz catalã: Sara Montiel, todo cheio de retratos e adereços dela a decorar.

A noite acabou na “La Paloma,” que era um antigo salão de baile e então o espaço era deslumbrante, com um candeeiro enorme no meio e com um tecto rebuscado. Parecia mesmo aqueles salões de bailes dos castelos (ou melhor, dos filmes). Um dado interessante é que durante a fila para a entrada, estavam vários mimos em andas que pediam ás pessoas para fazer pouco barulho. Pelo que li é uma espécie de campanha da câmara de Barcelona para o silêncio nocturno e respeito pelos moradores. Uma boa ideia!

Ao final tive pena porque os franceses vão embora amanhã de manhã! É que gostei mesmo deles! Daquelas pessoas que se está mesmo bem! Preciso de conhecer mais catalãos assim urgentemente!

">
(<$BlogItemCommentCount$>) comments